quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A vinha, por Armando Sena



"Pequenas fogueiras de silvas e mato ardiam por vários sítios, misturando ao nevoeiro matinal o seu fumo, deixando no ar um odor inconfundível.
Este era um cenário único, um cenário mutante. Esta era a imagem de inverno. Na primavera, seria diferente, tudo se iria colorir. Parecia que, embora o palco se mantivesse, a peça era outra. Conseguia-se assim, no mesmo recinto teatral, participar em diferentes performances que poderiam passar desde o cómico ao épico, até ao dramático, dependendo das vontades de São Pedro e da mãe natureza. Do outono à colheita tudo podia acontecer.
Este era o reino de Tomás Aguiar. Um reino de encostas feito. Alguns milhares de cepas desde o topo do monte até ao rio. A quinta do Sabiel, onde ele se sentia bem, onde se reencontrava consigo próprio, onde atingia o equilíbrio. Bem, um dos seus equilíbrios, pois se a vida é desequilibrada, não se pode equilibrar num ponto só. Assim, a sua era já uma derivação das leis da física, equilibrava-se aqui e ali, nunca se adivinhando para que lado pendia o fiel da balança no momento vindouro."
 Excerto do livro, Colheita de Incertezas

Armando Sena

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3 comentários:

  1. Gosto do seu livro e da sua escrita.Envio-lhe estes versos do GRANDE ALEIXO
    CINCO QUADRAS

    DE ANTÓNIO ALEIXO


    Acho uma moral ruim
    trazer o vulgo enganado:
    mandarem fazer assim
    e eles fazerem assado.

    Sou um dos membros malditos
    dessa falsa sociedade
    que, baseada nos mitos,
    pode roubar à vontade.

    Esses por quem não te interessas
    produzem quanto consomes:
    vivem das tuas promessas
    ganhando o pão que tu comes.

    Não me deem mais desgostos
    porque sei raciocinar...
    Só os burros estão dispostos
    a sofrer sem protestar!

    Esta mascarada enorme
    com que o mundo nos aldraba,
    dura enquanto o povo dorme,
    quando ele acordar, acaba.

    António Aleixo

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  2. Viva, Amigo Armando:
    Também eu gosto da sua escrita. Creio que já lho havia dito.
    Ainda não tenho um livro seu, mas ando a fazer por isso. E sei que vou gostar de o ler por inteiro em vez de o ler fraccionado, ainda que estes "bocadinhos" espertem o apetite.

    Abraço
    Júlia

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  3. Grato pelos vossos comentários.
    Bem hajam.

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