quarta-feira, 31 de julho de 2013

O Piconés,por Carlos Sambade

O Piconés .Foto de C.Sambade
E se lhe sai ao caminho um ladrão, o que faz, senhor bancário? Nunca na vida. Atiro-lhe. Chegava sempre de noite, pronto para levar as economias do emigrante para a terra natal. Todos os meses.
 Foi ao cabo de sete meses que António juntou para comprar uma casa em Mós, Moncorvo, a quem sabia que precisava de dinheiro para se desempenhar dos encargos com os estudos dos filhos. “Para descarregar uma besta à porta vejo-me atrapalhado, tire lá cinco contos”.
 Em França o dormir era em chambre, de passagem, ainda que escolhida pelo próprio. Em Portugal era para ficar.
O trabalho era o trabalho. Chegou a juntar três fardas completas. Enquanto houvesse franceses para os lugares de chefia não entravam portugueses. Alguns bem queriam e chegavam a fazer manigâncias para o conseguirem.
 Mudou de patrão por que quis. Sempre a subir até que a mulher deu guerra por causa da filha que tinha ficado em Portugal e ao cabo de cinco anos vieram embora. Com pena dele. A França naquela altura estava bem orientada, no seu entender. Ali havia a lei. No tempo do gelo tinham seis horas por dia garantidas pela “segurança”.
 Tem hoje setenta e sete anos. Ainda gosta de trabalhar, para si e para outros, manejando o serrote de limpa de arvoredo, a fouce para a erva, a calagouça para as silvas e o seu pulverizador, que é dos bons.
 Já na França lhe diziam que Piconês trabalha melhor que Fernandês (sic).
Carlos Sambade

1 comentário:

  1. São estas histórias de gente simples do antes quebrar que torcer que sedimentam ao nosso orgulho.Espero pela próxima.
    Leitor

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