segunda-feira, 27 de março de 2017

TORRE DE MONCORVO - EFEMÉRIDES (27/03)


Felgar (1974)
27.03.1798 – Os habitantes do Felgar fazem uma exposição para o governo pedindo liberdade para quem quiser construir o seu próprio forno de cozer pão, acabando-se com o “monopólio” dos fornos de poia que eram propriedade da câmara municipal que os cedia em exploração a quem mais desse. Vejam as razões apresentadas: - “… De haver fornos de poia se seguia grande prejuízo porque davam dois pães aos arrematantes por cada fanega; e também lenha; e porque o pão era de muitos donos em cada fornada, a alguns se lhe seguia prejuízo já porque se lhe azedava o pão e já porque se lhe queimava; e até às moças donzelas se lhe seguia prejuízo no crédito e honra porque os moços desavergonhados as iam esperar sem quietação para fins torpes e desonestos por as mesmas serem obrigadas a ir aos fornos de noite…”
António Júlio Andrade


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7 comentários:

  1. Os dois machos da fotografia eram do Ti Raul, um Homem com "H" que foi.

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  2. E...

    E a loja donde tira o estrume, serviu de paragem de autocarro, nos idos de 1976/79, a uma catrefada de estudantes que nela se recolhiam para fugirem à chuva em dias como o de hoje.

    E a casa defronte era do Dr. Urgel Horta, ex-presidente do FCP, singularmente bem recuperada e excelente enqt. turismo de espaço rural.

    E se o Ti Raul era um excelente veterenário com grande prática, já a tarefa de tirar o estrume competia ao seu criado Quintanilha.

    E se o quadro social representado pela fotografia está definitivamente morto por extinção dos seus agentes : machos, carro de madeira, belfas, jugo, estrume... e à excepção da tabuleta indicativa, a envolvência do local continua lá, passados que foram todos estes anos.

    Thomas

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  3. ..."e até às moças donzelas se lhe seguia prejuízo no crédito e honra porque os moços desavergonhados as iam esperar sem quietação para fins torpes e desonestos por as mesmas serem obrigadas a ir aos fornos de noite…”

    Ainda há donzelas e moços desavergonhados?
    Diga quem sabe...
    Noitibó

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  4. Em memória e homenagem ao Ti Raul Martins..

    A imagem de 1974 remete-nos para relíquias como os carros de madeira,talvez feito pelas mãos sábias de familiares do Ti Carricas,a pedir meças aos artesãos do mesmo ofício de Gebelim.
    Faz-nos recordar o respeito de animais dóceis,respeitadores e, sempre de atalaia,reflectindo, de algum modo,a personalidade de seu dono e tratador.E que artes ele tinha para conviver e dar saúde,calçando-os no Tronco, com sapatos novos,em forma de ferradura,cravados com martelinho certeiro,esperando por lima de fazer a barba a cravos em pontas retorcidas com torquês, apoiada em joelho genuflexivo e crente!
    E como "os homens não se medem aos palmos",O ti Raúl,pouco mais de metro e meio,era um grande Homem!
    Para além dos seis filhos,ainda acrescentava à mesa o seu cabreiro Cardanha.
    No Tronco,ferrava burros,mulas,machos,éguas e vacas.Acresce que que tinha três " artistas da cobrição":o Touro mirandês, o Cavalo e o Burro pimpão,este esguio e de grandes orelhas e de pelagem clara mesclada em tons de cinza.Nos dias da cobrição , de chegar o burro á burra ou o Mirandês ás suas namoradas,era ver a garotada, sedenta da sua iniciação sexual. Quem tinha de esperar eram o Professores Cosme e Armando, talvez com a de marmeleiro,enquanto espreitavam pelos buracos do portão de pinho empenado do palheiro da função.
    Então o Ti Raúl,manga direita arregaçada,para que a semente não se perdesse e o Mirandês não espumasse tanto,tudo fazia para que o macho acertasse em fêmea ciosa.O nosso veterinário- ferrador estava sempre pronto para acudir a animal que precisasse.Ele próprio para desempertigar animal, além das vacinas,emborcava-lhe os chás ou garrafa de aguardente pelos focinhos e segurava nas arreatas de passear cólicas.Era, ainda,um grande matador de porcos. Recordamo -lo, pelas manhãs e ás tardes, com seus socos de amieiro e sua boina basca a ordenhar ali na calçada onde os machos se deixaram fotografar em ano de revolução e de sentinela.
    Certo dia,tempo de malhadas,o Ti Raul chega ao Prado e com o coração nas mãos atira a meu pai:
    - Oh António tenho um problema!
    - Diga lá Ti Raul.
    - Tenho a cabrada na corriça fechadas pois o Cardanha não pode ir..
    - Não se preocupe que aqui o estudante vai tratar delas.Não se preocupe.
    E lá fui estudante-pastor ou talvez já professor com guia de marcha para Vale Ferreiro a tirar estágio de cabreiro.Mas o Ti Raul merecia bem o esforço.Lá bem perto onde hoje se ergue a Barragem de Vale Ferreiros até se andava melhor pois havia boas melancias, melões e outras frutas lavadas com água de ferro.As moínhas de fazer cócegas no pescoço eram bem mais incomodativas sob sol de 40 graus..E a bola pela tardinha também podia descansar! Um Abraço para o Ti Raul Martins.

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  5. Era ali, naquela loja, que aos domingos o meu avô Raul me dava cinco coroas.

    Com o Cimo de Lugar cheio de homens, cheio de vida, chamava-me de lado e metia-me na mão a moeda. Estas coisas não são para fazer em público, dizia.

    Estou a vê-la: caravela de um lado, escudo do outro.

    Sei hoje que era de cuproníquel, que entrou em circulação em 1963 e que foi desenhada por Marcelino Norte e esculpida por Martins Barata.

    Sabia na altura que dava direito a um pacote de amendoins torrados, a uma taça de laranjada e ainda sobrava dinheiro.
    A compra era feita no café do ti Zé Pinto, na Rua Direita. Pacote de amendoins para o bolso e a taça de laranjada bebida ao canto do balcão em duas goladas, que o café não era para garotos. Saía lavado em lágrimas. A laranjada era poderosa e o gás efervescia na boca, saía pelo nariz, atacava os olhos. Uma festa!

    Voltemos ao Cimo do Lugar.
    A loja era baixa, o Quintanilha era alto. O estrume acumulado encurtava ainda mais a distância aos caibros. O rapaz entrava encurvado e fazia uma gincana para se movimentar entre os animais sem bater com a cabeça no sobrado.

    Nos dias em que tirava o estrume a manobra era mais difícil. As cabeçadas nos caibros eram inevitáveis. De tal modo que um dia o rapaz vira-se para o meu avô Raul e sentenciou: “ou me arranja um capacete, desses das motorizadas, ou não tiro o estrume! “

    A. Manuel

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  6. Carro de machos:
    Potência: 2 C.V.(machos) tracção às 4 patas, combustível, palha, feno, cereal ...
    2 melei-as, onde encaixa um jugo.
    O carro é composto de três partes. O par de rodas o eixo e a mesa, tudo em madeira e ferro. A madeira das rodas é de freixo e o resto de olmo.
    As rodas são compostas por: o meão(peça central da roda), duas cambotas(fixadas ao meão por intermédio das arreias) e duas arreias.
    Cada roda é revestida com um aro de ferro, fixado com pregos grandes chamados cravos de cabeça grande garantindo maior resistência à roda
    A mesa é constituída pelo o soalho, as engarelas e os estadulhos
    O carro era usado no transporte de tudo podendo carregar cerca de mil quilos, podia também transportar à volta de 20 pousadas de cereal( cada pousada quatro molhos). Quando bem carregado podia cantar e ouvir-se a léguas de distância. O lavrador usava uma vara para guia dos animais, chamada de aguilhada, com um ferrão na ponta.
    A.C.

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  7. São lindos! ..ainda me lembro da música que eles faziam em tempo de grandes trabalhos..parecia que tinham vida , gemiam , parecia que tinham vida. E, havia quem soubesse quem era o dono pelo chiar do carro... São tempos que já foram..eu tenho a sorte de ter autenticas replicas em miniatura desses tesouros feitos pelo meu querido PAI.

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