sexta-feira, 16 de junho de 2017

José Rentes de Carvalho apresentou «Trás-os-Montes, o Nordeste» (

José Rentes de Carvalho apresentou «Trás-os-Montes, o Nordeste» (Fundação Francisco Manuel dos Santos), na 30.ª Feira do Livro de Mogadouro. A Biblioteca Municipal Trindade Coelho teve muitos leitores para ouvirem falar de si e da sua terra, no penúltimo dia de Maio.
O dia seguinte foi passado em Estevais, aldeia tão presente na vida e na produção literária do autor.
A Comunidade Cultura e Arte viajou a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos para ouvir J. Rentes de Carvalho e conhecer a aldeia e a sua gente.
«Red Burros dá-te asas»

Avaria no motor direito. Fosse já no ar e possivelmente não haveria reportagem sobre  J. Rentes de Carvalho, Estevais e «Trás-os-Montes, o Nordeste», livro que retrata a relação entre o escritor e a sua terra. Feita a reparação ainda antes da descolagem, o Dornier 228-201 fez uma inaudita viagem entre Tires e Mogadouro. Cerca de uma hora de voo que aplainou a distância entre as duas localidades. A exótica existência de um aeródromo contrasta com a pouca capacidade hoteleira da região, tal como Rentes de Carvalho alude no seu livro. Mas o que o autor não conta é também surpreendente. Talvez por não ser grande adepto de aviões – as viagens de automóvel do autor octogenário entre Amesterdão e Estevais são conhecidas  – Rentes de Carvalho não menciona a existência do «Festival Aéreo Red Burros – Fly in», cujo nome vem da tradicional feira asinina da aldeia de Azinhoso. Paraquedismo e Aeronáutica, entre outras actividades, pretendem promover e divulgar a região. Sem necessidade de check-out, partimos de autocarro com destino à Biblioteca Municipal Trindade Coelho, onde J. Rentes de Carvalho, Francisco José Viegas, David Lopes, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, e Francisco José Mateus Albuquerque Guimarães, presidente da Câmara Municipal de Mogadouro, procederam à apresentação do livro.
«Trás-os-Montes, o Nordeste» é um livro com gente dentro. As histórias passadas na aldeia que, antes das comodidades oferecidas pelos transportes mais modernos parecia ficar para lá da Patagónia, são registos de vivências duras e implacáveis. Francisco José Viegas, que há um quarto de século prometeu ao autor publicar os seus livros,  disse que «Periodicamente, no meio do deserto ouvem-se vozes. A de José Rentes de Carvalho é distinta e percebe-se em tudo o que escreve. Não fala daquele Trás-os-Montes que, até à década de oitenta, era conhecido por ser – preparem-se – “o reino maravilhoso”. O “reino maravilhoso” era um território arrancado a uma espécie de paraíso bíblico, de onde se tinham cuidadosamente retirado as referências à miséria, à pobreza, à degradação, à falta de sentido. O reino de José Rentes de Carvalho era e é outro.»
A liberdade de Rentes de Carvalho, por não ter apegos a grupos, partidos, ou «sacerdotes e arcebispos da literatura ou da política», permitiu-lhe criar personagens malvadas como o Meças, ou tão graves como Ernestina, numa prosa que resgata do esquecimento parte da riqueza lexical da nossa língua. Rentes de Carvalho é um arqueólogo desse «Nordeste dos anos em que havia Linha do Sabor, barcas no Douro, candeeiro de petróleo, o fachoqueiro de palha, o lampião e a candeia de azeite, e em que as mulheres – para poupar um fósforo!- iam acender a candeia a uma pinha da lareira de quem tinha lume aceso», disse Francisco José Viegas, natural de Pocinho, Vila Nova de Foz Côa. Na primeira viagem que fez a Estevais, foi levado pelo autor de «O Rebate» e «Tempo Contado» ao cemitério mais antigo. Intrigado, o editor da Quetzal fez o regresso a Lisboa a tentar compreender o sentido daquela visita. «Somos aquilo que sobra de nós. Nós, os vivos, e eles, os mortos», viria a concluir.

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