sábado, 17 de junho de 2017

TORRE DE MONCORVO - CALDEIRADA À MODA DA RIBEIRA


As coisas que se têm dito ou escrito sobre a sopa, ou caldo da Vilariça, não são bem assim. Escreveu a Maria de Lurdes Modesto, por sugestão do saudosíssimo Afonso Praça, uma receita de culinária, receita essa, que seria um simples caldo ou a sopa de feijão frade. O petisco chama-se Caldeirada da Ribeira ou À Moda da Ribeira, que era onde os meloeiros, como o meu saudoso avô “António Totó”, a faziam.

Naquele tempo os meloeiros passavam toda a época da cultura do melão na Vilariça a tempo inteiro, nem a casa vinham. O meu avô ia contando os dias de calor à sombra do choupo da Courela Grande. Da cabana fazia a sua casa, nela dormia e comia. O seu banho, era nas águas do Rio Sabor que, naquele tempo, corria límpido e despoluído. O fogão de cozinhar era a poça feita na terra onde se acendia a fogueira.

Quando chegavam as férias de Verão, eu ficava ansioso para ir passar uns dias com o meu avô na cabana. Podia assim, tomar uns banhos nos pequenos lagos de água quente que ficavam depois das trovoadas, ir brincar com as rãs, as cobras de água, as formigas e “saltões”, correr livre pelas “restolhas” do cereal que entretanto tinha sido colhido.
No final da semana recebíamos o resto da família. Vinha trabalhar na courela que o meu pai tinha “de meias“ porque os tempos eram de escassez e sempre dava jeito as batatas, o trigo, o milho, os feijões, e as abóboras que ali se colhiam, para aumentar o pecúlio que ajudava a sustentar a família.
Naquele tempo em que rolas, coelhos, perdizes e codornizes abundavam, ainda se caçava todos os dias e era fácil um qualquer caçador visitar o T’i António, ele era muito popular, levando-lhe uma peça de caça a troco de um melãozito. Daí podia surgir aquilo a que hoje em dia se passou a chamar “ Um Manjar dos Deuses “- a célebre Caldeirada à Moda da Ribeira.
O Meloeiro, neste caso o T’i António, começava por pôr a panela ao lume com cebola, alho, tomate e um fio de azeite, entretendo-se a refogar o início daquilo que seria o verdadeiro manjar. Depois faltava qualquer coisa, o que seria? O feijão-frade ou feijão chicharo, como era usual chamar-se, em vagem, pois claro! Sem ele nunca se poderia fazer. Mas e depois? Com tão poucos ingredientes, só se faria um caldito como todos os dias era usual fazer-se. O T’i António Totó “perguntava-se” o que mais poderia ser acrescentado? Ele que percebia da poda, a perguntar o que seria!!! Entretanto aparecia por ali um qualquer amigo que trazia consigo, (e seria porque podia), um pequeno “sanagalho” de chouriço. Então o T’i António começava a esfregar as mãos, embora a temperatura fosse de 40º ou mais, de contente, porque a coisa se compunha. Mas, após a primeira prova, o T’i António ainda não estava satisfeito, continuaria a dar um caldito de todos os dias, embora com mais um cheirinho.
- Será que o Manel da Portela não anda por aí? Perguntava o T’i António ao amigo. Ao que ele respondeu: - Ó T’i António, eu não o vi, mas olhe que o César anda aí por perto e deve estar a aparecer.
Logo de seguida chega o T’i César Martins, “Carmachinho”, de visita, morava na Corredoura e era amigo, também vinha atraído pelo cheiro do refogado, e claro, com o apetite a deixar-lhe saliva na boca. O T’i António pára-o logo à entrada da cabana, a brincar é claro, e diz-lhe que só entraria se pusesse à disposição da panela, uma rola, ou uma perdiz, ou até mesmo, um coelho, o que o T’i César logo de pronto fez.
Trazia consigo um coelho, duas codornizes e uma rola, que tão bem diziam com o caldo.
Esfoladas as peças de caça, foram fazer parte do que ali se estava a preparar. Nova prova do T’i António, e … ainda não era bem aquilo! Faltava mais alguma coisa. Foi cozinhando o que havia, o cheiro no ar era como mel para as abelhas e, logo depois, aparece mais alguém. Era nem mais nem menos o T’i César “Espanhol” que depois de ter dado uma “voltita” à caça, tinha ido beber um copo à Foz, à Taverna da T’i Branca, e, naquele tempo, beber um copo na T’i Branca implicava ter algum “conduto” no “burnal". Ora, era mesmo isso que vinha a fazer jeito ao T’i António. Não é que o T’i César trazia consigo um bom naco de presunto? Nada poderia ser melhor. Acrescentado o dito “ao caldo de todos os dias”, este tomou outro aspecto e outro cheiro. O T’i António Totó acabou por provar mais uma vez. E sabe o meu amigo o que ele disse, com toda a autoridade que lhe era reconhecida na “matéria”?
- Parece que a coisa está a compor-se. Já estou mais satisfeito. Mas ….
Ele disse, “ mais satisfeito “ e não, estou satisfeito! Pelo que haveria algum truque mais, que ninguém adivinhava.
- E o pão para fazer umas miguitas? Vai ao “taleigo” e saca de meio pão, mais do que recosido pelo calor, e põe-se a cortá-lo em fatias muito finas para acrescentar ao cozinhado, mais um naco de “entremeada” salgada, que ele já tinha posto de molho antes e que corta também, em fatias mais ou menos finas. Depois destes pequenos “arranjos”sai de junto da panela ao lume, sim, porque este ritual tinha que ser feito ao lume, mesmo apesar de ser Verão, e vai ao campo e traz consigo duas malaguetas, daquelas que antigamente se cultivavam na Vilariça, eram grandes e carnudas e picavam bastante, acrescentando-as em pedaços à panela. Deixa ferver, mexe e remexe, e prova novamente. Faz uma pausa e diz: - Falta mais um pouco de sal. Mais umas mexidas, feitas com a calma de quem tem todo o tempo do mundo e prova novamente. Respira fundo e prova outra vez.Finalmente acaba com a ansiedade de todos, ordenando:
- Trazei os pratos rapaziada, está pronto e no ponto, vamos atacar.
O resto fica no imaginário de cada um. O que aconteceria a seguir?
- Desculpem-me, mas a receita completa fica guardada no baú de memórias do meu saudoso avô - O T’i Antoninho Totó.
Beto Mesquita - 2010
Fotografia de 1966

(Reedição de posts desde o início do blogue)

10 comentários:

  1. Nenhum restaurante de Moncorvo serve esta maravilha.

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  2. Vi no museu da fotografia(a nossa memória em imagem) do professor ARNALDO uma foto da venda de melões na praça das regateiras. Digam ao professor para a publicar aqui. A foto é do doutor Simões, outro apaixonado pela fotografia e por Moncorvo como o professor. Bem Hajam. Um busto para o doutor Simões no larguinho da Misericórdia ,virado para o museu.
    M.C.

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  3. Um saboroso naco de prosa que nos traz à lembrança figuras nossas conhecidas, a saudável convivência entre elas,a mítica Ribeira e a gostosa caldeirada.Nem o frade do Caldo de Pedra teve tanta imaginação como o ti Antoninho Totó!Parabéns ao Beto,que não tenho o gosto de conhecer.

    Uma moncorvense

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  4. O senhor César "espanhol" foi o maior caçador que Moncorvo teve.Era uma lenda para os caçadores de domingo.

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  5. Penso que o maior caçador de Moncorvo naquele tempo era o senhor César Martins,que morava na Corredoura e era irmão do senhor António Martins( da Ferreirinha),o "endireita",a quem recorríamos quando tínhamos problemas da coluna.Creio que o senhor César "Espanhol",também bom caçador,morava na rua da Misericórdia.Acho que não me engano.A César o que é de César!

    Uma moncorvense

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  6. Rui Rendeiro Sousa :Peis que lu digo ou! Stá'qui um um bô cibo de prosa que bota um home im augado!!!

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  7. Este texto está excelente!
    Para um manjar de petisco, um texto delicioso!
    A.Andrés

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  8. Daniel Vilardisse: Excelente, pela descrição e pela caldeirada.Vou partilhar

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  9. Maria Fernanda Pinto disse:Vou partilhar, obrigada

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  10. Mais uma vez, este texto, mesmo à medida da caldeirada! Tudo a gosto e a preceito!
    Tininha, de Urros

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