domingo, 23 de abril de 2017

Visitar a pré-história no Museu do Côa
Em 1997, Portugal classificava a arte do Vale do Côa como Monumento Nacional. No ano seguinte, foi a Unesco a considerar o achado Património Mundial. Para trás ficava o projeto de construção de uma barragem no Baixo Côa, que se tivesse avançado deixava debaixo de água um dos maiores testemunhos dos nossos antepassados.
Há dez anos, arrancava a construção do Museu do Côa.  Abriu portas três anos depois e hoje é uma referência internacional, com mais de 40 mil visitantes por ano, em média.
A ideia dos arquitetos era fazer um miradouro. Um palco que permitisse ver uma paisagem classificada duas vezes: o Alto Douro Vinhateiro e o Parque Arqueológico do Vale do Côa.  A obra,  em betão com a cor e a textura do xisto, não desilude!
Logo à chegada, é a paisagem que prende o olhar e suspende a respiração;  o Vale do Côa, com o rio que segue sereno e uma traquilidade pouco habitual a quem chega da cidade.
Imaginamos os nossos antepassados a caçar nas margens e a fazer aquilo que nos traz ao museu: verdadeiras obras de arte, cravadas no xisto há mais de 20 mil anos! "Não sei se conseguem 'encaixar' o que é que são 20 mil anos. Quando nós dizemos que as pirâmides do Egito são muito antigas e têm 5 mil anos, nós estamos muito mais perto das pirâmides do que as pirâmides estão destas gravuras", faz questão de sublinhar António Jerónimo, um dos guias do museu. 


Na verdade, este espaço não é 'apenas' um museu; é uma viagem no tempo. "Há gravuras aqui no Côa, e pinturas, de quase todos os períodos da pré-história até aos nossos dias. Do paleolítico superior, passando pelo neolítico, pelo calcolítico, pela idade do ferro, dos séc. XVI, XVII até às figuras do moleiros do séc. XX."
"A maior parte das figuras representa animais de médio/grande porte, cabras, cavalos, os veados e o auroque que era uma 'besta' de um touro que tinha mais de dois metros de altura", explica António Jerónimo ao avançar pelas salas com ecrãs onde vão passando imagens de algumas dessas gravuras. Há casos em que "só é possível ver a réplica no Museu, uma vez que a rocha original não está acessivel aos visitantes".
O museu propõe ao longo da visita uma viagem virtual e interativa sobre o Vale do Côa. Há também instrumentos e armas usados na pré-história e não falta a cabana de peles, a grelha de secar o peixe ou  a fogueira que estava sempre por perto.
Um corredor com figuras florescentes em azul e vermelho  leva o visitante a uma outra sala onde a História é mais recente. As gravuras são da idade do ferro e representam já figuras humanas.   

A terminar a visita, a sala da arte intemporal apresenta uma instalação de Alberto Carneiro. Em forma de mandala, com tronco ao centro, o trabalho apresenta em redor quatro placas de xisto gravadas: Arte-Vida, Natureza-Cultura.  Um resumo do Museu do Côa.

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