domingo, 16 de abril de 2017

Os Reis da Banda de Música de Moncorvo

Tinha acabado de entrar o Ano Novo, talvez   1958, 1959?.  Sinceramente não sei precisar.  Era eu  um garoto, tinha sete, oito anos.
Na altura quando a banda de música de Moncorvo regressava de uma actuação, brindava os da terra na Praça Francisco Meireles com algum do seu reportório. As notas tinham certamente soado bem em terra alheia. E que outra música havia em Moncorvo, para além daquela que sazonalmente saía dos altifalantes (grandes cornetas) dos circos Flecha Monteiro e Mérito que acampavam na Corredora, onde  vivi pouco tempo, tinha eu 5 anos,  junto á capela de S. Sebastião. Era vizinho do Sr. César Carmachinho, caçador afamado de bigode  e  nariz esguio. Quando regressava a casa ainda a tarde era jovem,  o peso das   perdizes e coelhos obrigavam-no a  um andar descompassado.
Nas traseiras da capela morava o  Sr. Tódu.  Este devia  ser rico pois já tinha  carro , e não havia muitos em  Moncorvo. Penso que era um Ford de jantes com raios e  de má memória para mim. E porquê? Na altura depois do almoço o Sr. Tódu costumava dar duas de conversa no café do Sr. Moreira na Praça Francisco Meireles. Eu já a tinha fisgada apesar da tenra idade. E uma tarde mal o vi entrar  no carro e dar  à chave (nesse dia  sem recurso á manivela),   sentei-me  na traseira, uma espécie de grade junto  á roda suplente. Ele arrancou e passados poucos metros, Corredoura acima, quando vi que a máquina já levantava muito pó, e, antes que fosse tarde, atirei-me para o chão. Não fiquei lá muito bem tratado. Ele não se apercebeu, seguiu viagem.
Mas voltando á banda. O gosto pela música era de tal ordem que a garotada na altura “inventou” uma banda.  Era um grupo de rapazolas que residia nos locais que davam acesso á Estação de Caminhos de Ferro”-Ruas de Santo António, da Cal e Rua do Cabo onde vivi dois ou três anos. Aqui tinha como vizinho, o brincalhão tio João Poiares que era sapateiro e que me trouxe iludido meses a fio, com um sorriso de criança, por causa de uns pirilampos que dizia ter em casa e que mil e uma vezes me prometeu.  De promessa não passou.


O tio Barbinhas afamado matador de porcos, e vendedor de melões de carrasco que subiam da Vilariça, a Sra. Amélia Falmégas ansiosa em aprofundar os conhecimentos da vida alheia. Ah! Já me esquecia! A Dona Noémia estava sempre bem ajanotada.
Desculpem, já me voltava a esquecer da banda! Os canaviais cresciam na estação, ao lado dos belíssimos jardins, resguardados por sebes geométricas, que ouviam num ritual diário o cantar dos carris, transmitido pelo peso do velho comboio a vapor ou da automotora, a que alguns em tom depreciativo alcunharam de carreta, talvez devido ao formato obsoleto e desajeitado. Com as canas que o velho Estácio (tcherrim) nos dava, porque entrar na estação era obra, fazíamos os instrumentos. Como nós nos apurávamos! E assim ao desafio, nos tornámos pequenos fazedores de gaitas. O melhor artesão, meticulosamente e com singeleza idealizava e construía o mais belo instrumento. Desde Clarinetes, Trompetes, (com bocal e pistões )  até ás  Flautas,  as preferidas dos   menos habilidosos e pacientes. Não dava para diversificar, porque as canas mesmo que ainda tenras de verdes, não se afeiçoavam ás curvas do saxofone, da tuba ou do contra-baixo.  Na extremidade de cada instrumento, com arte, engenho e candura, colocávamos uma mola feita de uma cana de pequena grossura, que segurava uma folha de linhas estreitas, arrancada do caderno escolar, onde a magia inventava uma partitura despida de notas.
O mestre era o Sá Dias o filho do chefe da estação. De batuta na mão, comandava e também corrigia qualquer andar descoordenado, capaz de fazer inveja aos legionários que tinham assentado arraiais numa casa a caminho da Igreja, em frente á Pensão do Sr. Anastácio. Pensando bem á distância , havia dois  motivos   para   ser ele a comandar a banda. Por um lado era provavelmente o mais velho do grupo, e por outro por inerência das funções que o pai desempenhava. O que também quer dizer que era o dono da matéria prima com que se faziam as gaitas. Motivos suficientes para atingir o estatuto de “ maestro”. E lá andávamos nós radiantes, desabrochados, nas tardes de verão, na rua paralela á linha do comboio, entre o edifício principal da estação e a casa do Sr. Paiva, á curva da passagem de nível, refrescados pela brisa que descia da serra do Reboredo, para onde também, se o vento estivesse de feição, se espreguiçava e volitava o fumo que saía da chaminé do comboio  a carvão, que chorava de dor, do  cansaço  provocado pela  subida desde o Pocinho até Moncorvo.
A tonalidade do bramido do silvo da velha máquina a vapor suspirava de alívio, ao avistar a passagem de nível das Aveleiras, (também de má memória para mim) porque estava vencido o caminho mais duro até Duas Igrejas. Já agora deixem-me contar esta história, da passagem de nível das Aveleiras, em dia de magusto na Nossa Senhora da Esperança organizado pelo Padre Ribeiro lá para os lados da Açoreira, local que recentemente visitei passado mais de meio século.
No regresso a Moncorvo no final de uma tarde de sábado ou domingo de Outubro, apanhei boleia de bicicleta que já estava mais que lotada. O meu irmão (Manuel Araújo), mais velho que eu, ía sentado no quadro, o dono da bicicleta, o Janeiro de Meirinhos, era o condutor, ocupava o selim, ( ex-alunos do Colégio Campos Monteiro) e  a mim sentaram-me no guiador.  Na descida para as Aveleiras onde havia uma pequena caseta, a passagem de nível estava fechada. Eu fiquei apavorado prevendo o pior. O Janeiro travou, mas com o peso dos 3 passageiros o embate foi de tal ordem que rebentámos a primeira corrente. Como ía sentado no guiador e mais próximo do perigo, fui projectado para o meio da linha. O guarda, no caso a senhora Deolinda, atirou com a bandeirola que segurava na mão, e, que sinalizava a passagem ao maquinista, e teve ainda tempo de me retirar do meio dos carris. Aqui podem crer que fiquei mais mal tratado, do que na tarde em que me pendurei no carro do Sr. Tódu. Fui parar ao hospital, de onde saí com o rosto envolvido em ligaduras, qual homem Invisível. O Janeiro prometeu-me uma caneta de tinta permanente, coisa fina para quem devia andar na segunda classe, se não revelasse ao meu pai (que não era de brincadeiras e ainda  para mais agente da P.S.P.) que o meu irmão era também companheiro de viagem. E assim fiz. Como me foi pedido, fiquei calado que nem um rato. Mas nunca consegui testar a qualidade da caneta, se era de aparo grosso ou fino.
Mas regressemos á banda da qual era maestro o Sá Dias. Dos lábios moldados ao bocal da minha trompete, saía uma pressão que dava o tom a algumas modas, desde as das procissões, até às mais populares. Por exemplo: La Campanera, música espanhola na ribalta, e que fazia parte do reportório das bandas filarmónicas, das mais modestas, às mais afamadas. Mas o meu sonho era entrar para a banda de música de Moncorvo. E já me via em noite de arraial de trompete nos lábios, qual Luís Armstrong. Mas ainda nem para a flauta tinha ”peito e ar”. De menino se torce o pepino, diz o povo. De garoto por duas vezes consegui (levado pelo meu irmão, o tal da bicicleta, que já solfejava as primeiras notas na flauta) assistir ao ensaio nocturno da banda numa casa junto á Igreja da Misericórdia,  nas traseiras do actual Edifício da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo.  Agora vai. Prometo!
No início do Ano Novo, (1958,1959?) a banda de música de Moncorvo percorreu as ruas da vila durante algumas noites a cantar e a tocar os reis. E quando se cantam os reis espera-se pelas Janeiras. Talvez as dádivas se destinassem á compra de novos instrumentos musicais, ou então para a feitura de fardas porque alfaiates não faltavam em Moncorvo. Não sei, era um “catraio”, assim dizia o meu pai quando perguntava por mim a alguém. Mas importante era ouvir a banda. Lembra-me de numa dessas noites frias, assistir ao cantar dos Reis, junto á casa do Sr. Carocha(  alcunha ?) á saída da Praça Francisco Meireles, num pequeno largo no início da Rua dos Sapateiros. Nunca mais os esqueci.
Como aos dez anos deixei Moncorvo, esvaneceu-se o desejo de aprender música e tocar a trompete para desgosto meu. Aqui ficam então, os reis da Banda de música de Moncorvo.

Boas Festas, Boas Festas,
Desejamos neste dia,
Que gozem o Ano Novo,
Com saúde e alegria.

Nestas noites tão geladas,
Prá andarmos tanto caminho,
Pedimos o agasalho,
Do vosso fumeiro e vinho.

Dai-nos dinheiro ó boa gente,
Que a malta fica toda contente,
Somos rapazes temos esperança,
É mocidade de confiança.

Há chouriças penduradas, há morcelas e alheiras,
Desçam depressa as escadas venham-nos dar as Janeiras,
Se todavia não tem qualquer peça de fumeiro,
Nós aceitamos também, dinheiro muito dinheiro.

A banda precisa de viver, 
Sempre para dar,
Horas de prazer.
Comanda a alegria do povo,
E vem desejar Feliz Ano Novo.



Estácio de Araújo


2 comentários:

  1. Lindooooooooo!
    E faz tantos anos que não sabia do EstácioQQQQQQQQQQ

    Abraço

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    1. Caro anónimo,

      Pois fará, mas não sei quem está lá!
      Abraço.

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