terça-feira, 30 de maio de 2017

A Namorada do Ademar Soldado, por Tiago Patrício

A minha mãe fez anos ontem, queria fazer um bolo mulato para lhe adoçar a boca e cada dia que ia à capoeira guardava um ovo até fazer meia dúzia, depois pedi farinha à Tia Adelina e fui à adega tirar um cálice de azeite do ano passado e dois de água-ardente. O açúcar, tive de o comprar ao Ti Zé Júlio, mas foi o suficiente para a mãe se zangar porque gastei dinheiro mal gasto, daqui dalém e que o tempo não estava para extravagâncias. Deitou-se sem o provar, mas  hoje de manhã apanhei-a a comer  um mordo  ao  pé do mosqueiro.
Está bom, mas deitaste muito açúcar, era escusado.


O Ademar não me escreve mais de duas semanas e quase não sei nada dele. Se ao menos o primo, que é sargento, o livrasse do Ultramar! Queria tanto vê-lo, mas ele tarda em vir e nem dá nocias. Escrevo-lhe uma carta todos os Domingos e na segunda-feira, entrego-a ao carteiro quando passa na motorizada, depois sento-me no balcão a remendar uns trapos ou a costurar uma saia ou uma blusa para fora.
Há um par de meses a minha mãe achou-me distraída a apanhar a roupa quando passou o carteiro e mandou ler uma carta do Ademar ao filho da vizinha. Fiquei aborrecida com ela, tinha lá que mandar ler a carta ao garoto, anda na quarta classe mas já o apanhei por duas vezes a espreitar-me quando estou debruçada no tanque a lavar roupa. E cada vez que me vê atenta-me com os ditos do Ademar e arremeda-me quando o mando calar.
Se não receber mais nocias dele até Sexta-feira, apanho o comboio no apeadeiro da Fonte do Prado e vou de surpresa com o primo do Ademar até ao Porto. No fim do mês sai a lista dos que vão no próximo destacamento para a Gui e não quero que vá sem me despedir dele.
Dizem que aquilo lá está mal, que o calor é pior do que aqui no Verão e nem sempre de comer e a água é pouca e cheia de maleitas. Tem morrido muita gente nesses sítios, ainda no outro ano, o Alcides, filho do Ti António Joaquim veio embrulhado numa bandeira, vieram uns tropas e deram tiros e tudo, no dia do enterro, mas foi uma tristeza muito grande na aldeia. Morrer assim um rapaz daquela idade, vinte anos acabados de fazer, num lugar tão longe de casa e nem deixaram ver a cara à gente, dizem que vinha desfigurado por causa duma mina ou coisa parecida que eles lá têm.

Nunca saí mais longe do que até Mogadouro à feira dos Gorazes e o comboio é bem bonito, tem uma máquina preta a reluzir com uma chami e três carruagens, duas com ripas de madeira e outra com bancos estofados de couro castanho.
Anda ligeiro e treme por todos os lados, os bancos são rijos debaixo da almofada que trouxe para me sentar,  trouxe também a renda para me entreter na viagem que é comprida e cheia de nomes de terras com gente a entrar e a sair.

Os dias agora são grandes e ainda chegamos lá antes de se fazer de noite, é bem assim. Demora o dia inteirinho até ao Porto, vamos passar na Régua que fica a meio caminho e onde vendem rebuçados de açúcar em calda que o meu Ademar gosta. O primo dele, o Artur, vai fardado, é um homem de grande futuro, já é Sargento e o Sr. Revisor mostrou-lhe respeito quando pediu os nossos bilhetes. Conversa pouco, quando passamos por algum sítio é que me diz o nome da terra, se já lá esteve, se há bom vinho e boa comida ou se conhece alguém de lá.
No Ferro-Minas há um comboio maior, mais do dobro, com vagões carregados de minério que vai até ao Porto e depois mais para baixo, diz o Artur, para ser fundido e transformado em ferro e aço.
Depois do rio Sabor aparece o Douro, passamos por cima numa ponte de ferro e ficamos admirados com tanta água junta. É escuro e mete medo da altura da ponte, a máquina apita muito e o comboio é tão pesado, todo de feito de ferro e cheio de gente. Mas lá chegamos em bem, quando abro os olhos já estamos na estação do Pocinho. É muito importante, diz o Artur. É uma terra de muito vinho, amêndoa e azeitona.
Mudamos de comboio para outro mais largo e com mais gente, o Artur fuma cigarros grossos, ainda não se casou, mas diz que já tem uma moça em vista lá no Porto, trabalha numa repartição ao do quartel, na rua de Serpa Pinto, diz ele e que é de boas famílias. Para o ano, quando souber se fica no mesmo sítio, está capaz de lhe falar em casamento, chama-se Deolinda e fazia muito gosto em casar com ela. Almamos um frango que matei para o caminho e uns grelos com pão e azeitonas.. Estendemos uma toalha no regaço e comemos os dois, a ver o rio a ficar para trás e o Artur a migar uma cebolinha que trazia no saco, diz que lhe sabe melhor assim. Tirou uma garrafinha de vinho e cada vez que bebe dá um estalo com a ngua, para mostrar que está bom, ainda me ofereceu, mas eu acenei que não. Sabe-me tão mal e nem sei como conseguem beber tanto e ficar tão contentes. No ficomemos  uma  maçã  Bravo  de  Esmolfe,  cada  um,  arrumamos  tudo  na  merendeira  e deitamos os ossos e as migalhas pela janela fora.
O Artur passa as mãos na barriga satisfeito e risca um fósforo para acender mais um cigarro, deita fumo como o comboio e um cheiro a silvas queimadas, depois tosse muito, mas continua, diz que sabe bem e que agora é moda lá na cidade.
Comecei a ficar com a bexiga cheia e como tinha medo de fazer na retrete do comboio, comecei a ficar nervosa e mais apertada ainda, com uns calores a subirem-me ao peito, fiquei assim uns instantes até que apareceu uma estação grande com gente por todo o lado. Era o Tua, onde vem ter a linha de Bragança e Mirandela.
Havia pessoas à espera de ligação, umas para a Régua ou Porto e outras para o Pocinho ou Barca d’Alva, na fronteira. O casal à nossa frente levantou-se para sair e o Artur disse-me que iam meter mais uma carruagem e que demorava um pouco. Levantei-me aliviada e saí cá para fora à procura, perguntei a um homem que vendia regueifas que me indicou o sítio onde havia mais mulheres à espera.
Lá longe estava o caldeirão grande cheio de água até ao cimo para abastecer o depósito do comboio, dizia TUA em letras grandes e eu pensei no meu Ademar, ia ter com ele já não tardava muito.
Assomei-me para a retrete e tive que tapar o nariz com o pivete, lá dentro havia ao modo de um prato de barro branco, dos mais grandes que já tenho visto e com um buraco escuro lá no meio. Fiquei um instante a olhar, mas como a vontade já era muita, amarrei-me lá por cima e deitei tudo cá para fora.
No fim da viagem a roupa fica tisnada da fuligem, o corpo maçado de estar sempre na mesma posição e doem os quadris que até custa a andar. Há comboios e carruagens sem fim e mais para diante comecei a ficar espantada de ver gente, gente, gente a ir e a vir, a correr, a falar alto e outras sentada com uns papeis cheios de letras à frente dos olhos. Depois olhei para cima para ver se ainda era de dia e fiquei tão espantada por ver aquela armação de vidro lá ao alto que até nos tapava o céu.
É uma admiração a estação de S. Bento, grande como tudo e cheia de movimento como eu nunca vi, o Artur faz-me sinal para ir atrás dele, quer mostrar-me uma figura com o nome da nossa terra, anda tão ligeiro que nem parece dele, mira o que ali está escrito, disse ele ao apontar  para  a  parede.  E  lá  estava  escrito  o  nome  da  aldeia,  ao   de  Freixo  e  de Mogadouro.

Levo uma malinha de xadrez cinzento e um vestido creme que andei a arranjar toda a semana para a viagem, andamos muito até ao Quartel, o Artur tem que me puxar pelo braço, porque eu ficava parada a olhar para as casas altas e as ruas cheias de carros escuros que botam tanto fumo como o comboio e apitam quando atravessamos à frente deles. Chegamos ao Quartel e atravessamos o portão de ferro, os guardas deixam-nos passar e ficam muito sérios e quietos a olhar para nós, depois o Artur deu uma ordem a um deles e num instante apareceu o meu Ademar.
Assim que me viu, fardado e com um boné em bico na cabeça, corou de vergonha e ficou sem jeito a esfregar as mãos e a olhar mais para o Artur do que para mim.
O Artur cumprimentou-o à maneira deles e levou a mão à cara, eu ri-me, o que deixou o Ademar ainda mais arrenegado. Depois do Artur se despedir de nós, virou-se para mim e perguntou-me ao que vinha, o que queria agora, sem avisar e que ele não podia sair quando quisesse porque andava cheio de trabalho e a tropa era a sério.
Eu fui ficando assustada, ele a falar cada vez mais alto, à roda de mim, a olhar para os lados e para o chão e a meter e a tirar as mãos dos bolsos e a mexer nas chaves.
Que tinhas que vir, não escrevi mais cedo porque ando cheio de afazeres, não me dão descanso, matões já tenho de sobra, ficasses lá com tua mãe na terra que ficavas bem, não tinhas nada que vir à cidade sem conhecer nada nem ninguém, ainda por cima com outro homem. O que vão pensar as pessoas? Agora toda a gente o sabe lá na terra e vão caçoar em mim. Isto não pode ser, tens que te ir embora, eu não posso consentir uma mulher que se mete assim ao caminho e não interessa que seja primo, é pior ainda, ouviste! Não tens vergonha nenhuma nem te sabes vestir, ainda por cima com saias curtas. Vai-te embora com quem vieste e não me voltes a atentar, que cheio de consumição ando eu.
Vim embora pelo mesmo portão por onde entrei, chorosa e sem saber o que pensar, a minha mãe bem que me avisou, agora uma rapariga da aldeia a ir à cidade, ainda por cima com outro homem, arranja-la bonita. Anda lá anda, que te vais desgraçar a ti e a mim, leva ao menos a direcção da sobrinha da tia lia Rita, que te arranje um quartinho na pensão Reboredo.
Perguntei a uma senhora muito  composta e que andava muitligeira,  aonde ficava a pensão, disse que a conhecia e que também era um comes e bebes, mas falava dummaneira, assim ao modo que a caçoar por eu ser da aldeia.
Fui a pé, arreliada e sem saber ao certo por onde era, contam-se tantas coisas da cidade e eu sozinha e a fazer-se de noite. Passou por mim um homem novo e deitou-me uns olhos que me arrepiaram. mas eu nem tenho cabeça para ter medo, quase que me apetece que me façam mal e me empurrem para o rio, que Nosso Senhor me perdoe por tão maus pensamentos, mas só me apetece morrer, sou a mais desgraçada das mulheres.




6 comentários:

  1. Gostei muito. Lembrei-me das histórias contadas pela minha avó. Felicidades.

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  2. Eliane Ayres através de Lelo Demoncorvo
    7 h ·
    Olha Terezinha Fatima Martins! Q delícia de conto português. Ficou faltando o desfecho! Esse moço Lelo Demoncorvo tem um blog e publica uma porção de coisas da região de Trás-dos-Montes

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  3. Terezinha Fatima Martins :
    Nossa, Eliane! Que legal ! Adorei! O que se refere a essas terras trasmontanas são emocionantes presentes ! Nossas origens são bênçãos de Deus e, as pessoas de quem recordamos ao ler sobre esses lugares, são eternas e muito amadas! Vou ver o blog! Grata!

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  4. Pois que li e recordei palavras que minha avó utilizava... Saudades, a brotar lágrimas aos olhos e escorrerem-me à face, como águas do Tua, que não conheço, mas que faz parte de minha e nossas Saudades. ♡♥♡♥...

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  5. Gostava de saber o desfecho do conto.

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  6. Adorei...Um texto fantástico recheado de expressões riquíssimas do falar simples Transmontano.Parabéns!

    Nota:Gostei da maldade do garoto,mas fiquei arrenegada com o malandro do Ademar...O bolo mulato,meus amigos,com aquele cheirinho a canela e aguardente é de comer,não um mordo,mas uma fatia enorme...Obrigada pela partilha.Leitora

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