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domingo, 23 de abril de 2017

MANQUINHO DA AÇOREIRA , por Rogério Rodrigues


Depois de abrir a imagem clique no endereço que se encontra no canto inferior esquerdo para a ampliar.
Os versos de autoria do Manquinho e a foto das três irmãs foram enviados por Paulo Patuleia .
Postado em 15/09/11

domingo, 13 de dezembro de 2015

Quando o Natal chegar...por Pedro Castelhano

 Quando o Natal  chegar
liberta o pirilampo e liberta a Luz
arruma a ternura e arruma a casa.
E areja o sótão da tua infância.
Quando o Natal chegar
dá música aos surdos
e palavra aos mudos
afaga laranjas nas mãos frias
e figos secos ao luar
e amêndoas de Agosto a quem chegar
e limões, e ácidos limões, em teu lugar.


Quando o Natal chegar
à beira do rio olha a outra margem
cheia de sombras, pedras e perdas
e abre os braços, colunas e pontes
e começa a tocar a alma qual piano
na translúcida mágoa de nada tocar.


Quando o Natal chegar
Jesus já passou sem passar
na barca do tempo, entre margens
sem rio, mas à beira de naufragar.
Quando o Natal chegar
não leves granadas para casa
nem bombas para qualquer lugar.
Caça pombas ao anoitecer, morcegos
da tristeza e olhares cegos de vazios.


Quando o Natal chegar
olha os filhos como se só
então nascessem
e os dias fossem cristais
partindo grãos de romã,
tão sensíveis ao ouvido
mas sem pena nem sentido.


Quando o Natal chegar
adormece à beira dos violinos
com a loucura dos deuses
e a tristeza do Mozart.
Que os deuses devem estar loucos
porque a lareira está-se a apagar.


Quando o Natal chegar
cuida das prendas e ofertas
aos que nunca mais vão chegar.
Entre pedras e perdas
guarda o amor de guardar
que a face da mãe ondeia
e o pai adormece a lacrimejar.

Quando o Natal chegar
a nordeste de tudo, mais vale
encher o saco de Nada
 e percorrer a noite, até ao abrigo
dos campos da quimera calcinada.
Com o saco cheio de Nada
visita Iraque e o Afeganistão.
Toca às portas da Palestina
e canta dor às portas da prisão.


Quando o Natal chegar
enche o saco de Nada.
Pode ser que por tanto Nada
algo te queiram dar:
um filho, um sorriso, talvez luar.


Quando o Natal chegar
talvez amor e amar.
Dádiva por dádiva,
aceita, é de aceitar.


Pedro Castelhano


                                                           Felicidades
                                                                    e
                                                      um Natal partilhado

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Dia Mundial do Livro - Poemas de Pedro Castelhano (Rogério Rodrigues)

País  de sacanas e safardanas
Retrato do artista quando jovem.Foto Leonel Brito.

de mistura

de usura e óleo bento

animais perfumados

de anéis e arreios

por demais

escuros e iguais

sacanas e safardanas

que nos governam

e nos enterram

de silêncios promíscuos

e também palavras

em sintaxe de mendigo

com alma sem abrigo

e consciência ao léu

que não há inferno nem céu

sacanas e safardanas

o que fazeis deste país

que também é meu?

Toada de Castro Vicente

Era uma vez em Castro Vicente

de  almas negras com fumo de maldição.

As mulheres sofriam em silêncio

e as crianças não nasciam em Castro Vicente.

Das ruínas do castro fugiam os corvos

crocitando negros até ao Rio

e as cobras invadiram as pedras

e sugaram o leite das crias

dormentes e amargas ao anoitecer.

Era uma vez em Castro Vicente

com padre temente que o sino caísse

no silêncio da terra amaldiçoada.

As pedras vertiam sangue e as cobras

falavam a língua rascante do Oculto.

Fugiam as aves  do céu em peste.

Até em Castro Vicente o padre chorava.

Veio o Bruxo quando o Diabo já chegara.

E pela primeira vez em Castro Vicente

um Bruxo foi santo ungido de urtigas

e ossos ressequidos com danças de freira

vestida de sambenito, ave livre do Planalto.

E as crianças começaram  nascer

no tempo em que se anunciava o fim do Mundo.

Era uma vez e aconteceu em Castro Vicente

no dia em que o Diabo se esqueceu do Oculto.

Nota do editor: 
O dia 23 de abril foi proclamado em 1995, pela organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), como Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, e tem por base as datas de nascimento e de morte do dramaturgo e poeta inglês William Shakespeare (1564-1616) e de nascimento do escritor espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616).

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Que flor é esta?- por Pedro Castelhano



Que flor é esta 
que amacia o xisto 
 e revela a terra
mais perto do céu ?

Que flor é esta
que lava a vista
só de olhá-la?

Que flor é esta
que cheira a infância
livre, clara  limpa?

Que flor é esta
crisálida da amêndoa
entre pedras e alturas
que estremece  à brisa
mas anuncia a Primavera?
Que flor é esta
nascida da amêndoa
no ventre cálido
em parto de Verão?

Que flor é esta
transformada por mãos
já cansadas de partir
nas longas e frias noites?


Que flor é esta
que  morreu cedo
para renascer doce
na gula humana?

Esta é a flor
qual sereia serena
que  em Setembro anuncia
em tarde de convívio
o princípio da Confraria.   

Nota do editor:  O poema foi declamado pelo confrade Armando Troca durante a realização em Moncorvo, no dia 5 de Outubro do corrente ano, do Primeiro Capítulo da Confraria da Amêndoa do Douro Superior.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Mário Correia ,Nuno Pacheco,Zeca Afonso ,Rogério Rodrigues e Teresa Torga

Lembram-se, certamente, de ouvir Chico Buarque cantar que "a dor da gente não sai no jornal". A verdade é que às vezes sai, ainda que dissimulada. E até inspira canções. Esta, de Chico, que aliás não é dele, pode servir de exemplo. Chama-se Notícia de jornal, porque foi essa a sua fonte: um jornal sensacionalista brasileiro publicara a história de uma mulher que, por desgosto de amor, tentara suicidar-se (felizmente sem êxito). O mais curioso é que os autores da canção foram dois jornalistas (também músicos), Luís Reis (1926-1980) e Haroldo Barbosa (1915-1979). Escreveram-na assim: ""Tentou contra a existência num humilde barracão/ Joana de tal, por causa de um tal João/ Depois de medicada, retirou-se pro seu lar"/ Aí a notícia carece de exactidão/ O lar não mais existe, ninguém volta ao que acabou/ Joana é mais uma mulata triste que errou/ Errou na dose, errou no amor, Joana errou de João/ Ninguém notou, ninguém morou na dor que era o seu mal/ A dor da gente não sai no jornal".
 Sem amores nem suicídios, mas com um toque trágico, é a história de uma outra notícia (esta portuguesa) transformada em canção: Teresa Torga. Escreveu-a José Afonso, depois de ler uma crónica do jornalista Rogério Rodrigues publicada a 4 de Maio de 1975 no Diário de Lisboa (DL). Uma mulher decidira fazer strip-tease no cruzamento das avenidas Miguel Bombarda e 5 de Outubro, em Lisboa. E enquanto alguns transeuntes se dirigiam a ela no intuito de a cobrir dos olhares mais curiosos, um fotógrafo aproveitou-se da confusão para tentar fotografá-la. A história é agora recordada no livro As Mulheres Cantadas por José Afonso, da autoria de Mário Correia e editado pela Sons da Terra neste Agosto em que se completaram (no dia 2) 84 anos do nascimento do músico e compositor. 

domingo, 11 de agosto de 2013

Moncorvo em todo o seu esplendor, por Rogério Rodrigues

Foto:Lb
No solar dos Vasconcelos ( será que o nome leva mais um l?) , as telhas da primeira fila são novas, para esconder as outras em ruínas e cheias de ervas.
Será esta a imagem do telhado de um solar a imagem de Moncorvo?
Um natural de Moncorvo quando morreu tinha zero euros na conta bancária, mas tinha trinta e sete belos fatos no armário.
Será esta a política sócio-económica de Moncorvo?
Conta-se – e é do meu tempo – que preclaros cidadãos vinham passear para a Praça (ainda não estava reposto o chafariz felipino), após jantar, palitando os dentes  incomodados com os minúsculos pedaços de um suculento bife, mas que não passavam de restos de um caldo de couves.
Será este o comportamento alimentar, saudável e dietético, diga-se, de Moncorvo?
Em Moncorvo, em todo o seu esplendor,  a aparência é um valor a que tem de se dar sempre a máxima importância. É o retrato fiel deste país, honra lhe seja feita.
RegrEça que tens cá lugar.

Ai! Camões, Camões, que apagada e vil tristeza!

Rogério Rodrigues 

sábado, 27 de julho de 2013

Tiago Rodrigues e o seu " Mundo Perfeito" mudaram-se para São Paulo



Queridos amigos,
 O Mundo Perfeito mudou-se para São Paulo, onde vamos apresentar 4 espectáculos em 3 semanas e Tiago Rodrigues dirige uma oficina com artistas locais. Além das peças “Se uma janela se abrisse” e “Três dedos abaixo do joelho”, este programa vai abordar as colaborações do Mundo Perfeito com companhias brasileiras: “Mundo Maravilha”, criado em colaboração com os cariocas Foguetes Maravilha, e a novíssima “Peça romântica para um teatro fechado”, que Tiago Rodrigues dirigiu no Teatro Ipanema com actores provenientes de quatro companhias brasileiras.

 MUNDO MARAVILHA

uma criação colectiva de Mundo Perfeito (PT) e Foguetes Maravilha (BR)
de e com Alex Cassal, Cláudia Gaiolas, Felipe Rocha, Paula Diogo, Renato Linhares, Stella Rabello e Tiago Rodrigues

26, 27 e 28 de Julho – SESC Belenzinho
Sexta e sábado às 21h, Domingo às 18h

PEÇA ROMÂNTICA PARA UM TEATRO FECHADO

texto e direcção de Tiago Rodrigues
Companhia Provisória: Pequena Orquestra, Cia Teatro Independente, Cia dos Outros, Clube Paradoxo
com Alessandra Colasanti, Carolina Bianchi, Joana Lerner, Julia Marini, Keli Freitas, Michel Blois, Pedro Henrique Monteiro, Rodrigo Nogueira, Tomás Decina e Vinicius Arneiro


31 de Julho, 1 e 2 de Agosto – SESC Belenzinho
Quarta, quinta e sexta às 21h


SE UMA JANELA SE ABRISSE

de Tiago Rodrigues
com Alexandre Talhinhas, Bernardo de Almeida, Cláudia Gaiolas, Paula Diogo e Tiago Rodrigues


2, 3 e 4 de Agosto – SESC Belenzinho
Sexta e sábado às 21h, Domingo às 18h

TRÊS DEDOS ABAIXO DO JOELHO

de Tiago Rodrigues
com Isabel Abreu e Gonçalo Waddington

9, 10 e 11 de Agosto – SESC Belenzinho

Sexta e sábado às 21h, Domingo às 18h


 Oficina dirigida por Tiago Rodrigues

DECORAÇÃO DE INTERIORES

4 e 5 de Agosto.
Sábado, das 14h às 17h
Domingo, das 13h às 16h


Nota do editor do blogue: Tiago Rodrigues(primeiro á esquerda) é filho do jornalista e poeta moncorvense Rogério Rodrigues e da médica egitaniense Arlete Rodrigues.

domingo, 21 de julho de 2013

Toada de Castro Vicente, por Pedro Castelhano

Castro Vicente 
Era uma vez em Castro Vicente
de  almas negras com fumo de maldição.
As mulheres sofriam em silêncio
e as crianças não nasciam em Castro Vicente.

Das ruínas do castro fugiam os corvos
crocitando negros até ao Rio 
e as cobras invadiram as pedras
e sugaram o leite das crias
dormentes e amargas ao anoitecer.

Era uma vez em Castro Vicente
com padre temente que o sino caísse
no silêncio da terra amaldiçoada.
As pedras vertiam sangue e as cobras
falavam a língua rascante do Oculto.

Fugiam as aves  do céu em peste.
Até em Castro Vicente o padre chorava.
Veio o Bruxo quando o Diabo já chegara.
E pela primeira vez em Castro Vicente
um Bruxo foi santo ungido de urtigas
e ossos ressequidos com danças de freira
vestida de sambenito, ave livre do Planalto.
E as crianças começaram  nascer
no tempo em que se anunciava o fim do Mundo.

Era uma vez e aconteceu em Castro Vicente
no dia em que o Diabo se esqueceu do Oculto.


 Pedro Castelhano 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Cão ingrato (na sequência do texto do Abílio)

Um cão de Moncorvo, resgatado por alemães, seria uma ironia.
Cão ingrato
Um cão abandonado, sem nome, desempregado de longa duração, mas não inscrito no Centro de Emprego,  dispensar um memorando de qualquer troika (na origem, três cães a puxar um trenó) e a não estragar as estatísticas, seria uma profunda ironia.
Para cúmulo, é um cão ingrato, nem sequer é um bom discípulo, cumpridor dos seus deveres. Mas não! De barriga cheia que os contribuintes da rua lhe fornecem alimentos sem juros,o cão dorme durante o dia e ladra durante a noite. Não respeita o contribuinte, sobrecarrega-os de insónias e  pesadelos. Sonham com o resgate alemão. Aí, pode ser que o cão sem nome aceite as regras porque com os alemães não se brinca, a não ser que o tratamento aos cães seja um tudo nada diferente do tratamento aos homens.
Porque se o cão fica em mãos portuguesas, na época em que a compra dos títulos académicos substituiu a compra dos títulos nobiliárquicos, ainda apanha com o conselho de Garrett:”Foge cão que te fazem barão. Para onde se me fazem visconde?
Um conselho para o cão abandonado e ingrato: não ladre muito pois o ladrar ainda não dá créditos universitários.
E daí, nunca se sabe…
 Por outro lado, se não vier o resgate alemão, tenha esperança na burocracia. Vai morrer, ingrato e abandonado, de tanta velhice, para desespero dos seus contribuintes, os homens sem sono da sua rua.

Apostila deslavada: saúdo o regresso dos lagostins. O seu silêncio não incomoda ninguém. Pelo menos, a vizinhança não se queixa.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Meu Caro Rogério,

A sua intervenção em favor dos lagostins despejados do tanque das “regateiras” pode ter trazido uma réstia de luz a um mistério que há um ou dois anos vem ensombrando os sonhos dos habitantes do meu bairro. Sonhos que, em cada imensa noite que passa, se transformam em pesadelos de insónia.
Eu explico: numa placa triangular ajardinada com plásticos e ervas secas, que tem no centro um candeeiro de iluminação pública mais torto do que quem lá o implantou há já uns 30 anos, mas que estoicamente se mantém de pé por gentileza de um posto de transformação de energia eléctrica que o ampara, um cão cheio de mazelas instalou a sua residência em uma cova que ele próprio ali foi escavando a montante da base do poste que suporta o dito candeeiro, numa manobra de engenharia capaz de enciumar muitos engenheiros cá da terra. Não sei se cobram IMI ao animal, mas aquilo tem aspecto de residência principal e permanente, e não apenas de férias, já que o bicho passa ali as quatro estações do ano. Os próprios moradores do bairro já assumiram que aceder ao buraco é invasão de propriedade privada e só lá vão para lhe deixar comida, que o pobre humildemente agradece.
Todavia, saciado o apetite, o malvado esquece a gratidão que deveria continuar a sentir por quem lhe demonstra tanto carinho e, nas horas da noite em que os próprios sonhos se apagam para nos deixar dormir, aí vem ele em ruidosos protestos contra tudo e todos, ladrando, uivando, chorando até (serão saudades dos lagostins?) e interrompendo malvada e inexoravelmente o nosso direito a um merecido e reparador descanso.
Residência Canina
Parece ter já sido atropelado pelo menos duas vezes, com moléstia nas patas dianteiras, real ou presumida, já que, quando está frio, manca umas vezes da direita e outras da esquerda, numa demonstração de aparente falta de memória sobre qual das patas de facto lhe dói (ou então está a mangar connosco).
Como as queixas que vêm sendo feitas não têm frutificado e o bicho continua a reclamar o seu direito (constitucional ou meramente autárquico?) a não deixar pregar olho a ninguém, a conclusão a tirar é a de que o pobre animal - que nem nome se lhe conhece e está sujo e claramente doente e não exibe licenças nem sinais de vacinas - tem mais sorte do que os lagostins (tão rapidamente saneados), aparentando gozar do especial privilégio de incomodar impunemente os outros, geralmente só reconhecido a criaturas geneticamente mais evoluídas, embora ciclicamente mais barulhentas.
Conclusão: nestas paragens, é preferível ser cão vadio com boa vizinhança e fiscalização condescendente, do que lagostim sem licença de desportos náuticos.
Um abraço,
Abílio Dengucho

Moncorvo, o regresso do lagostim perigoso

Fotografado hoje às 09,45
Início do folhetim:

 

domingo, 1 de julho de 2012

Em Moncorvo, o lagostim é perigoso


Na tarde quente, mais quente que já houve, no dia em que Portugal jogou à trave com a Espanha, um solícito funcionário da Câmara, avisado, por certo sabiamente,  por denúncia feita, da existência de lagostins, trouxe o camaroeiro e começou a pescar para um caixote do lixo, os crustáceos do pequeno e insignificante lago, lateral à Igreja na antiga Praça das Regateiras.
...do pequeno e insignificante lago
Os lagostins são perigosos, mesmo antes de mudarem de casca: devoram os pés das crianças e lançam mau olhado aos namorados.
São proibidos os lagostins em Moncorvo, terra benevolente para a criação de morcegos ainda que habitem ( e talvez por isso) nos sítios mais esconsos da Igreja. Só nos faltava esta! Primeiro, foi uma jovem hipopótama com o nome ternurento de Margarida, depois foram os morcegos nas suas várias espécies com as conotações políticas mais diversas. Saem à noite, mas ainda não está provado ( senão denunciante já avisara os serviços camarários) que os morcegos não comem lagostins, nem os lagostins se alimentam de morcegos.
O solícito empregado da Câmara bem desafinava: “Ordens são ordens”
Os lagostins são perigosos. Agora que acabaram no lixo, Moncorvo pode dormir descansado. Estes lagostins eram um perigo para o equilíbrio democrático e demográfico da Vila. São capazes de devastar campos de arroz, cultura que o actual Governo de crista alçada quer desenvolver na Vilariça, multiplica-se com a velocidade do vento, substituindo, pela procriação, os que emigram.
Os dirigentes camarários e os denunciantes correlativos que dirigiram a investigação meticulosa e profunda, sem a necessidade de uma comissão de inquérito nem postura municipal, são sábios. A saúde pública e os necessários instrumentos para que ela exista, são o desígnio, o grande desígnio destes dirigentes para quem o cidadão é tudo, mesmo quando reduzido a coisa nenhuma.
Bem hajam! Eu sei que preferem a lagosta ao lagostim.
 Rogério Rodrigues

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Trás-os-Montes

O mundo infantil é, por vezes, cruel e competitivo. A violência sobre ele mesmo, sobre os outros e sobre os animais faz parte do mundo rural, também violento, em que os pais batem nos filhos e nas mulheres. As crianças vivem num espaço concentracionário onde a sexualidade é bruta e animal e são precisos rituais, liturgia e mitos. Em todo o mito há sempre uma componente sacrificial. Aqui  o imolado é o Miúdo, jovem pastor surdo e desajeitado que acaba  exposto, durante a noite,  num jazigo do velho cemitério da aldeia. Em Trás-os-Montes , não encontramos o Reino Maravilhoso de Torga, mas o isolamento como um espaço entre a violência e a resignação. Só os cães são dóceis e obedientes, enquanto têm dono. Todos querem partir. As crianças estão confinadas a uma geografia diminuta e a um tempo repetitivo. Por vezes, a crueldade sem sentido que percorre as páginas do romance, a necessidade de se sustentarem em forças ocultas, sejam objectos, sejam sonhos lembra o Deus das Moscas de William Golding.    
Vem este arrazoado a propósito do romance de Tiago Patrício que ganhou o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís, cuja apresentação por José Mário Silva e a prof. Anabela Mendes, decorreu no passado dia 26 na FNAC do Chiado, com uma presença representativa de originários de Carviçais onde o autor viveu até aos 19 anos. Esta aldeia de Moncorvo é pródiga em talentos. Basta recordar Vitor Rocha (Postigo Cerrado, Na Andadura do Tempo) , escritor tão injustamente esquecido, e António Sagué.
O livro de Tiago Patrício, editado pela Gradiva, um cosmopolita assumido, um traga-mundos, farmacêutico como  Fialho de Almeida, com 32 anos, mas a frequentar Literatura e Filosofia na Universidade Nova de Lisboa, é, para mim, uma das mais agradáveis surpresas, em termos de ficção, deste inquietante 2012.

Rogério Rodrigues
Foto de Rui de Carvalho

sexta-feira, 11 de maio de 2012

MEMÓRIA PORTÁTIL - PEDRO CASTELHANO

Folhear jornais antigos é um bom exercício para compreender como o País mudou nestes últimos 30 anos. Maior justiça social, outros cuidados de saúde e sobretudo liberdade. Para alguma memória, muita amnésia.
Vejamos pois, tendo como fonte, exclusiva neste caso, o “Notícias de Trás-os-Montes”, como a nossa região mudou, ainda que muitos dos temas e necessidades se mantenham.
Grupo Desportivo de Moncorvo -- O “Notícias de Trás-os-Montes” publica a um de Julho de 1972, em grande destaque, a subida do Grupo Desportivo de Moncorvo à III Divisão. Ganhara o último jogo da distrital contra o Macedo de Cavaleiros. A subida do GDM foi abrilhantada no jardim de Moncorvo com um grupo musical que fazia a sua estreia, “Teorema”. Tempos depois tomaram posse os novos corpos gerentes. Vale a pena referi-los: Almiro Sota, presidente; Fausto Catalão, vice-presidente; secretário, Eduardo Leite; segundo secretário, José Cavalheiro Paiva; vogais, António Teixeira, Manuel Tristão e Arnaldo Gonçalves.
Vale a pena lembrar a equipa inicial: Eurico; Sílvio (actual treinador do GDM), Amadeu, Custódio e Morais; Favorino e Paçô; Miranda, Vaz, José Manuel e Mateus.
Mas a equipa não funcionava bem. À quarta jornada levou 8-0 do Lourosa e ainda não tinha ganho um jogo, nem sequer marcado um golo. À sexta jornada o GDM conseguiu marcar um golo, ainda que tenha perdido com o Leça por 4-1.O golo do Moncorvo foi marcado pelo Zé Manuel. O Lourosa liderava a classificação.
Na jornada seguinte o GDM perdeu com o Limianos por 4-2. Os golos foram marcados pelo Miranda e pelo Santos. Sílvio já não jogava no GDM.
Na 11ª jornada o GDM continuava com um ponto apenas. Já não havia nada a fazer.