domingo, 23 de setembro de 2012

António Rodrigues Marques - (Miranda do Douro c.1637 – Londres – 1688)

António J. Andrade
Maria F. Guimarães

Chamava-se Francisco Rodrigues, mas era conhecido pela alcunha de marquês, certamente por ser filho de Marquesa Rodrigues. Nasceu em Miranda do Douro e aí casou com Maria Lopes e nesta cidade, na rua da Costanilha, residiram e tiveram dois filhos machos. O mais novo, nascido por 1637, recebeu o nome de António Rodrigues Marques.
Francisco Rodrigues que, entretanto rumara a Lisboa onde abrira uma loja comercial, faleceu pouco tempo depois. Não sabemos se, nessa ocasião, Maria Lopes e os dois filhos ainda estavam em Miranda do Douro ou residiam em Lisboa. Como quer que fosse, a partir dessa altura, os órfãos ficaram sob a protecção de António Rodrigues Mogadouro, irmão do falecido, cujos negócios prosperavam. Sobre Maria Lopes deixamos de ter notícias. Acreditamos, porém, que tivesse emigrado, tal como seu irmão Jorge Henriques que foi para Livorno, Itália. Encontrá-la-emos mais tarde em Londres.
Porta da Costanilha (1949)
Chegados os anos da juventude e da entrada na vida activa, António foi pelo tio enviado para a cidade da Baía, no Brasil, como agente comercial da firma. E com ele foi também o primo Francisco Rodrigues Mogadouro que, anos mais tarde, no tribunal da inquisição de Lisboa, haveria de confessar:

- A pessoa que lhe ensinou a crença na lei de Moisés foi António Rodrigues Marques, cristão novo, homem de negócio, primo e cunhado dele confidente, viúvo de sua irmã Leonor Rodrigues (…) haverá 14 anos, na cidade de S. Salvador, estado do Brasil, em sua própria casa, onde ele confidente também assistia…
Regressou a Lisboa uns 6 anos depois e esposou a prima Leonor, que logo veio a falecer, sem deixar descendência. António nunca mais casou, ficando a viver em casa do irmão e da cunhada, que todos trabalhavam nas empresas Mogadouro que então se constituíam num forte grupo comercial organizado em rede familiar, pelos quatro cantos no mundo.
Em 19 de Julho de 1672, a roda da fortuna mudou, quando a inquisição de Lisboa prendeu António Mogadouro e os seus dois filhos mais velhos. Curiosamente as primeiras denúncias e essenciais para estas prisões, foram feitas por 2 escravos negros que serviam na casa de António R. Marques e este era incluído nas mesmas, como o mais culpado. E outras denúncias contra ele foram feitas, nomeadamente por Jorge Coelho Henriques que, em 29.11.1673, disse aos inquisidores que 9 anos e 4 meses atrás, em Lisboa, na rua Nova, António Rodrigues Marques, contratador, casado com uma filha do Mogadouro, se tinha com ele declarado judeu.
A prisão dos Mogadouro não seria isolada, antes estaria enquadrada num esquema bem montado pelos inquisidores de decapitação das empresas que, em seu entender, protegiam os judeus. Na verdade, nunca em Portugal a luta política entre o “partido da inquisição” e o “partido dos judeus” seria tão intensa como naquela época. E António Rodrigues Marques assumiu-se como um dos rostos da contestação aos métodos e ao poder da inquisição. A ponto de, juntamente com Pedro Álvares Caldas e D. José de Castro (outros grandes capitalistas) “contratarem” os serviços do padre Francisco de Azevedo, da Companhia de Jesus para em Roma, negociar com a Santa Sé um perdão geral para os que estavam prisioneiros da inquisição. Naturalmente que o “embaixador” Francisco de Azevedo começou exactamente por conseguir salvos condutos para os 3 homens, assim se explicando porque António Rodrigues Marques não foi preso com o tio, os primos e as primas. Nos arquivos da Torre do Tombo, colecção Armário Jesuítico (maço 4, nº 19), encontra-se uma carta escrita e assinada por aqueles três homens, dando conta daquelas negociações e garantindo o pagamento de 6 mil escudos de despesas feitas pelo “embaixador” com “prendas” a dignitários da Santa Sé.
Um homem que levava e trazia as cartas de Roma era conhecido e parente afastado, originário de Mogadouro, chamado Gaspar Lopes Pereira. Acabou também por ser preso e queimado na fogueira pela mesma inquisição.
Acerca destas negociações e das notícias de abusos escandalosos da inquisição portuguesa que chegavam a Roma, deve dizer-se que não foi conseguido o perdão geral pretendido mas tão só se conseguiu que a inquisição estivesse parada durante 5 anos, entre 1676 e 1681, não se efectuando novas prisões nem autos de fé, nem sequer diligências burocráticas relacionadas com os processos dos presos. Estes continuaram presos, numa espera que se tornaria angustiante.
Enquanto em Roma se negociava, também por Lisboa promovia António Marques outras diligências visando colher informações sobre os parentes presos e ajudá-los na sua defesa e libertação. Para isso conseguiu “comprar” os serviços do alcaide da cadeia, de modo a este deixar passar cartas e escritos entre ele e o primo Diogo Rodrigues Henriques (o filho mais velho do Mogadouro e líder das empresas) e também dinheiro, essencial para corromper o alcaide e os guardas.
De Roma não vinha o perdão e em Lisboa os inquisidores descobriram o crime do alcaide. António Marques terá feito embarcar para Inglaterra os membros da família que ainda não estavam presos, nomeadamente a sua mãe, o irmão, a cunhada e os filhos destes. E terá diligenciado a transferência de todos os valores possíveis, especialmente dinheiro e diamantes. Ele ficou por Lisboa, munido do salvo-conduto, pegando as pontas dos negócios que restavam das empresas dos Marques/Mogadouro. Inclusivamente há notícia de duas idas dele à sala da inquisição, na qualidade de testemunha, por causa da corrupção do alcaide e da morte de um preso na cadeia, com um tiro que lhe deram, suspeitando-se que os mandantes foram “judeus” por ele ser um traidor e denunciante.
Gorado o perdão geral e entrando de novo a funcionar a inquisição, António Rodrigues Marques sentiu que a sua vida corria perigo e nada havia já que o protegesse, pelo que fugiu para Inglaterra. Documentada está a sua presença em Lisboa em 22 de Fevereiro de 1681 quando assinou a carta de que atrás se falou para o padre Francisco de Azevedo. E sabemos que em 4 de Janeiro do ano seguinte, quando a inquisição foi procurá-lo (a ele e aos 2 escravos referidos), já se encontrava em Londres.
E em Londres estava ainda em 2 de Janeiro de 1688 “na cama doente, mas de perfeito juízo” a fazer seu testamento. E este é uma verdadeira janela que se abre sobre as vivências deste homem. Nele deixa como herdeira e administradora de seus bens a sua mãe, Sara Henriques, encarregando-a de fazer diversas ofertas, a começar pela Congregação Hebraica de Londres. Mas entre as ofertas destacamos duas que bem revelam o ânimo deste “judeu novo”, renascido como a Fénix:
* Deixava 200 libras esterlinas ao dr. Fernando Mendes para comprar uma jóia para a sua filha Catarina. Deve aqui dizer-se que o dr. Fernando Mendes era médico da rainha de Inglaterra, D. Catarina de Bragança e era casado com uma sobrinha de António Marques. Exactamente porque a rainha de Inglaterra foi madrinha da filha do dr. Fernando Mendes é que esta recebeu também o nome de Catarina. E isto mostra como os irmãos Marques, nascidos em Miranda do Douro, se movimentavam pela Corte de Inglaterra. Eles pertenciam à poderosa classe dos “judeus novos” construtores do mundo moderno capitalista.
* Outro legado era para um segundo filho do mesmo, ainda pequeno. Mas nisso impunha o testador uma condição essencial: - Pretendo que o dr. Fernando Mendes dê o meu nome ao filho e dentro de 2 anos deve estar circuncidado. Se isto não acontecer, excluo o dr. Fernando Mendes e seu filho da minha herança. E do mesmo modo, fez questão de incluir cláusulas semelhantes em legados para outros sobrinhos netos, filhos de David de Medina e Samuel Ximenes, que apenas seriam entregues se tivessem o nome de Marques.  

 Fontes
A.N.T.T. Inquisição de Lisboa, processos 5412,  8447, 11262.
A.N.T.T. Armário Jesuítico 2.ª caixa n.º 82 maço4  n.º 19
The National Archives – Public Record Office – Catalogue Reference: Prob/11/394 –Image Reference 548.

 

 

 

1 comentário:

  1. Um dia ainda ande reconhecer todo este trabalho.Dois autores que fizeram mais pelo conhecimento dos crimes do santo ofício que todos os outros investigadores juntos.Bem hajam.
    Leitor

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