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domingo, 2 de julho de 2017

TORRE DE MONCORVO -NOVA CENTRALIDADE

Se, durante séculos, a Praça foi o centro da vida política e social da Vila, nos últimos 25 anos, nasceu e cresceu uma nova centralidade, na Corredoura, em ruptura quase total com a sua antiga geografia. Restam dos tempos anteriores aos fundos comunitários, a capela de S. Sebastião e das duas escolas do ensino primário já desactivadas. Cresceram pavilhões, novas urbanizações, um mercado, repartição de finanças, escolas do ensino básico e secundário, um complexo desportivo com piscinas e campo de ténis no antigo campo de futebol, um pelado que não resistiu à evolução do tempo. A feira do gado deixou de existir, surgiu um bairro novo no Santo Cristo e os pré-fabricados vindos da Suécia, encostados às paredes do cemitério foram erradicados e no seu lugar surgiu mais um parque ou espaço de feira e circo.
A Corredoura era um bairro essencialmente habitado pelo proletariado agrícola, com os olhos postos na Vilariça, minimizado pelo poder de Praça e, por vezes, ridicularizado pelas gentes da Vila. Hoje é a centralidade mais activa do município.
Mas o quotidiano continua lento, na lenta erosão da paisagem humana, com as muitas esplanadas praticamente vazias, só cheias nos fins de semana, com os jovens de regresso à terra, vindos dos múltiplos politécnicos que vão proliferando, como cogumelos de ensino, pelos distritos de Bragança e Vila Real, Guarda e Viseu. Animam as noites com muita cerveja e shots, abundância de telemóveis e mesmo portáteis em esplanada, a par de música maldita para os tímpanos. Cursos sobre cursos, mas sem saída para esta “geração pendura” como lhe chamou Daniel Sampaio. “Geração pendura” porque, à falta de saídas, no mercado de trabalho, demoram a abandonar a casa dos pais.
Multiplicam-se como soluções precárias e transitórias os vários e mais variados cursos de formação profissional, e das três promessas do actual poder político – barragem do Sabor, acesso ao IP 2 e criação de um pólo de ensino superior-- só esta não foi cumprida, muito embora numa antiga casa dos magistrados, funcionem cursos temporários de Turismo e Património.

Texto de Rogério Rodrigues.In TORRE DE MONCORVO Março de 1974 a 2009
De Fernando Assis Pacheco ,Leonel Brito, Rogério Rodrigues
Edição da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Torre de Moncorvo - NASCER, MORRER

A minha tentação é coleccionar aqui todos os dados disponíveis sobre a terra onde, mal ou bem, tentei penetrar para lá da capa de ignorância (minha também) e do desinteresse. Logo no início, porque sempre me tocam muito de perto estes números, tratei de saber como se nascia por aqui. Apurei o seguinte, relativo a 1971 (estatísticas da saúde): no distrito de Bragança, e para esses doze meses, tinha havido 3079 partos e nada menos de 1852 sem assistência. No concelho de Moncorvo, com um pouco mais de pormenor: 179 partos (175 simples); 54 em estabelecimentos de saúde com internamento (deles um feto morto); 124 no domicílio (com 3 fetos-mortos); 1 noutro local. Destes 124 no domicílio, 6 foram com médico, 2 com enfermeira ou parteira, 116 sem assistência.
  Fui depois saber como e de que se morria. Moncorvo, 1971, elementos oficiais: 164 óbitos. Quase todos devido a estados mórbidos, pois só se haviam registado 7 acidentes e 1 óbito por «suicídio e lesões auto-infligidas». Quanto às doenças, espantei-me um tanto ao ler que 36 óbitos se deviam a «sintomas e estados mórbidos, mal definidos». Fiquei a pensar que naquelas aldeias, naqueles lugares tão desacompanhados de tanta coisa, quando se morre já pouco interessa saber de quê…

In TORRE DE MONCORVO , Março de 1974 a 2009. De Fernando Assis Pacheco ,Leonel Brito, Rogério Rodrigues. Edição da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo
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sábado, 5 de janeiro de 2013

VALE DA VILARIÇA

O Vale visto da serra de Bornes
O vale da Vilariça estende-se por três concelhos (Vila Flor,Alfândega da Fé e Moncorvo). Corresponde a uma talha geológica. Quando do da formação dessa falha, o Douro, sofreado no curso normal, desviou-se para noroeste contornando uma montanha. Ora, ali mesmo ia desaguar o Sabor, seu afluente: as águas desde passaram a refluir regularmente, alagando o vale. É a «rebofa», «rebofa» que engrossa a ribeira da Vilariça (afluente do Sabor) e será a principal responsável pelos espessos aluviões do vale.Entretanto, se um acidente geológico explica a riqueza da Vilariça, não a explica toda. Há que acrescentar-lhe, como factor também determinante, o climatérico: reina no vale um microclima mediterrâneo que cem anos atrás, por exemplo, dava melões de 10/15 quilos e pés de cânhamo com mais de dois metros de altura.Nesta zona de Moncorvo os desvios térmicos anuais são os de maior amplitude no continente. Por seu lado a amplitude higrométrica é também a mais elevada do continente. Terra rica do ponto de vista agrícola, a Vilariça tem a marcá-la simultaneamente um teor apreciável de insalubridade.

Fernando Assis Pacheco. Jornal República , Março de 1974.Fotos A.F.F.M.

sábado, 2 de junho de 2012

Moncorvo -zona quente na terra fria

AS CONTAS DO GUARDA-RIOS
No Peredo vimos a escola primária, um «salão» de amêndoa, uma pequena taberna, algumas casas de habitação. O resto do tempo passámo-lo, eu e o Lelo, a conversar com residentes. Ao almoço, oferecido por uma família dos conhecimentos do meu companheiro, entrámos no menu da época: salpicão, alheiras, grelos, batatas, queijo e vinho (o que constituía um festim apreciável, porque a população pobre resume-se muita vez a uma dieta de batatas e grelos).
Ataquei o Sr. José Correia, guarda-rios, com a pergunta sacramental:
«Quanta gente vive na aldeia?»
José Correia pôs-se a fazer contas de cabeça: a bem dizer conhece o Peredo casa por casa, família por família. Concluiu com a informação de que tinha cerca de 200 habitantes antes da emigração, estando hoje com 120. Entretanto, para demonstrar que as estatísticas eram assunto dele, pegou num papel e numa esferográfica e começou apontar os emigrantes, velhos e novos, homens e mulheres, famílias completas (o que tem sucedido mais no Peredo do que noutras aldeias).
«Então?»

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

FOGUETEIROS, LOUCEIROS, TECEDEIRAS (1974)

O Felgar estava na minha agenda por várias razões, uma delas pessoal: é de lá, e lá tem a mãe, o meu camarada de redacção Afonso Praça. Como primeiro contacto que este havia-me indicado o chefe da estação dos correios, um homem amável e bem-disposto, excelente cicerone – o sr. Guimarães. Quando o procurei, entretinha-se a colar selos numa série de cartas de gente da aldeia para a parentela emigrada.
Do sr. Guimarães vieram-me indicações concretas sobre a terra e os habitantes. O Felgar, uma das aldeias mais importantes do concelho, está em mutação como praticamente todas elas: a variante chama-se «emigração». Constroem-se casas, recebe-se dinheiro, aplica-se este num sem-número de investimentos (não apenas as casas). Velhos ofícios vão morrendo: se passou a era dos ferreiros, famosos muito quilómetro em redor, o mesmo destino parece vir a ser o dos louceiros e das tecedeiras. Porque já não há quem queira agenciar a vida sentada ao tear ou diante da roda, na perspectiva de ocupações mais pingues. Tecedeiras são actualmente três ou quatro, e nenhuma jovem. Louceiro resta um.
Até os fogueteiros lançam mão de outros trabalhos. O mais conhecido criou de raiz uma fábrica de pimentite (colorau) …
O Felgar, onde existem dois cafés, está a mudar. Para melhor? É essa a opinião de residentes, diferente a de moncorvenses cépticos. Rica do ponto de vista agrícola, a aldeia tem neste momento, uma fonte de rendimento mais notória: as remessas da emigração. Se um dia as minas de hematite rearrancarem no Carvalhal, a dois ou três quilómetros do Felgar, o ritmo de vida dos felgarenses poderá vir a ser diverso.

In TORRE DE MONCORVO , Março de 1974 a 2009. De Fernando Assis Pacheco ,Leonel Brito, Rogério Rodrigues. Edição da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo