quarta-feira, 29 de junho de 2011

Urros, Retratos da minha infância,por Arinda Andrés

Minha bisavó Teresa! Minha bisavó velhinha!

...escaleiras velhas...

Dizem que eu era teimosa…
Não acredito; um pouco, talvez.
A hierarquia estava estabelecida, e não havia nada a fazer.
Numa casa cheia de mulheres, a harmonia do trabalho transparecia em conversas e afectos; em murmúrios de abelhas a zunir de união e de cumplicidade; no tinir das loiças e dos copos no armário, sobre velhas tábuas de soalho gasto e cansado; em risos e gargalhadas que se abriam no ar enquanto as galinhas, livremente, cacarejavam nas ruas e os galos cantavam vitória de breve reinado, quase sempre a acabar em panela de refeição simples, inesquecível e bem gostosa; em laços de amor, de colos e de mimos!
Era, pois, necessário, de vez em quando, lembrar, não fosse alguém esquecer-se…
“Obedece-se aos mais velhos! Os homens é que mandam!”,hum…,
ao que eu acrescentei, a sós com a minha bisavó, claro!,
“… mas aqui em casa, quem manda é a avó !
(… Meu Pai, sentado numa cadeira, de palhinha, onde o tempo se encarregara de registar todas as nossas marcas, olhava-me, como sempre, envolvendo-me na mais rigorosa expressão de absoluta protecção, porém eivada de austera generosidade e sabedoria, de amor, e de muito respeito!)
Minha bisavó velhinha tomou as minhas mãos, pequeninas, nas suas.
Naquelas tardes, tudo estava no seu lugar. Tudo era calmo e tranquilo!
As mãos de minha bisavó eram tão bonitas! A pele lisa, lisinha, brilhante, de tão macias que eram! Perdiam-se, demoradamente, afagando a minha cabeça, e tudo era perfeito !
E toda a gente dizia que o meu cabelo era macio! E eu bem sabia porquê!
Parece que estou agora a ver, como para me entregar algum segredo , as minhas mãos, guardadas nas mãos da minha bisavó, velhinha! de veias longas, salientes, azuis, bonitas! de rugas finas, em pele fina! bonitas! cheias de compreensão, de dádiva, de abnegação, de ternura, “não, ainda não fizeste bem esta letra…tens de fazer as coisas muito direitinhas, devagarinho…!”
” Não, em casa do avô, quem manda é o avô; em casa de teu pai, quem manda é teu pai”.
E com uma sabedoria cheia de amor, de paciência, de perdão, desenhada em longos caminhos, de veias azuis, bonitas! de rugas, de pele fina, bonitas! porque eram da minha bisavó!
” A avó só faz o que ele manda e pronto, ele não precisa de lhe dizer nada!
Eu, habitualmente, quase sempre, como herança natural e pessoalmente recebida , e depois hábito instituído que ninguém ousava quebrar, salvo pequenas criancices, acatava, ordeiramente, as regras; as coisas decorriam naturalmente, com pequenos sobressaltos, contudo… Mas agora, até me dá vontade de rir e tanta saudade, tanta saudade… meu Deus!,
E eu respondi de imediato,
-Pronto, eu agora faço tudo o que a avó Teresa me mandar e pronto! Elas não precisam de me dizer mais nada. (!!!…)
Nas escaleiras velhas e cansadas, trôpegas, de outras crianças, e de outras avós, mas minhas, o sol, sábio de conversas e de conselhos, veio poisar na minha cabeça, para doirar e amadurecer as minhas impertinências passageiras.
Naquele tempo, as palavras tinham tanta força!
Como fomos felizes! , sem o sabermos (alguém acrescentava)

Tininha, de Urros, Retratos da minha infância
Arinda Andrés

7 comentários:

  1. Lindo, bonito belo este texto de ARLINDA ANDRÊS, e tantos outros que passam por ste blog, propunha ao administrador deste blog que reunisse estes textos e o publicasse em livro, a net é muito bom mas esfumasse depois de visitar estas paginas obviamente com autorização dos autores era muito bom

    ResponderEliminar
  2. Isto é literatura.Há livros à venda de Arinda Andrés?Onde?

    ResponderEliminar
  3. Como descreve tão bem momentos (retratos) da sua infância!Espero por mais.

    Uma moncorvense

    ResponderEliminar
  4. Procurei na nossa biblioteca e não têm.Parece que ainda não editou nenhum livro .É pena.O senhor do primeiro comentário tem razão.Façam tudo para editar a sua obra.
    Leitor

    ResponderEliminar
  5. Bonito , Tininha! Não sou o que se diz "saudosista", mas estas memórias fazem bem à alma: lavam-nos de pequena malfeitorias que no futuro haveríamos de cometer.

    Até Agosto. Um abração.
    Júlia

    ResponderEliminar
  6. Amiga júlia:
    um regresso bem rápido e cheio de energia.
    Com amizade,
    um beijinho.
    Tininha

    ResponderEliminar
  7. Obrigada aos que partilham as minhas memórias de infância.Entretanto ando à procura de um editor.
    Tininha

    ResponderEliminar