segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Colonia e Vilões no Teatro Baltazar Dias

  Luisa Paolinelli partilhou uma publicação na cronologia de Teresa Martins Marques.
Foi um sucesso no Teatro Baltazar Dias, com duas centenas de pessoas, cobertura televisiva e uma grande participação no debate- um muito obrigada ao amigo realizador Leonel Brito!
Texto da autoria de Ernesto Rodrigues, Presidente do CLEPUL da UNIVERSIDADE DE LISBOA ,lido na apresentação do documentário: Caros espectadores

Leonel Brito está a convalescer de operação melindrosa no hospital de Badajoz – sendo transmontano, vive numa quinta em Elvas – e não pode, assim, conviver hoje com gentes que filmou e admira há 40 anos. Espera regressar aquando da Feira do Livro.
Esse desejo há muito alimentado pelo realizador encontrou resposta no Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, através do seu pólo na Universidade da Madeira, dirigido por Luísa Paolinelli.
Temos, Teresa Martins Marques e eu, inúmeros encontros com Leonel Brito. Aquela redigiu o essencial da biografia de Amadeu Ferreira – a alma do mirandês e vice-presidente da Comissão de Mercados e Valores Mobiliários (1950-2015) –, intitulada Um Fio de Lembranças (2015), a partir de 32 horas de entrevistas gravadas por Leonel Brito.
Quando presidi à Academia de Letras de Trás-os-Montes, este filmou entrevistas de uma hora com dez autores, além de falar com 13 personalidades para um documentário sobre os meus 40 anos de vida literária. É, pois, uma relação cúmplice que esperávamos aprofundar na nossa deslocação à Madeira.
Na linha de experiências de Manoel de Oliveira ou João César Monteiro, o pós-25 de Abril trouxe um interesse crescente pelas manifestações populares maioritariamente centradas no Alentejo e em Trás-os-Montes, bem como por casos de cooperativas, empresas ou fábricas, em que pulsava o voto de uma democracia alargada.
No exemplo transmontano, tínhamos Manoel de Oliveira em O Acto da Primavera (1962), Alfredo Tropa, com Pedro Só (1971), Festa, Trabalho e Pão em Grijó de Parada (1973), de Manuel Costa e Silva, e Falamos de Rio de Onor (1974), de António Campos. Sucederam Trás-os-Montes (1976), de António Reis e Margarida Cordeiro, Máscaras (1976), de Noémia Delgado, e Argozelo ‒ À Procura dos Restos das Comunidades Judaicas (1977), de Fernando Matos Silva.
Neste ano de 1977, uma nova cinematografia emerge com Leonel Brito: não é só o trabalho de campo que vultos eminentes da filologia e das ciências sociais já tinham operado na região, acrescidos de musicólogos ‒ que o mesmo realizador segue em Encomendação das Almas (1979), onde também não falta o inquérito; nem tão-só um esboço de ficção, a caucionar o folclore, embora pequenas histórias, geralmente dramáticas, venham encaixadas. É, a par disso, um envolvimento político e denunciador, lido em Colonia e Vilões; ou um lento olhar picado do alto da serra, único a abarcar a grandeza de uma paisagem, rude e tirânica, da qual se desce ao indivíduo comum, para a focalização abrir à comunidade – e, nessa alternância, contar-se a história económica, social, religiosa e política da terra natal, Torre de Moncorvo, ‘vila rica’ de minério e olhar da PIDE à sombra do templo, agora afrontada por anseios legítimos do retornado, emigrante, camponês, asilado, estudante. Refiro-me a Gente do Norte ou A História de Vila Rica (1977), uma docuficção em renovada sintaxe, que faz deste filme pequena obra-prima em menos de uma hora.
Se o espectador ilhéu conhecer esta filmografia e outros títulos facilmente encontrados online, perceberá melhor o discurso fílmico de Colonia e Vilões, título que causa estranheza aos continentais. Quando os intelectuais se demitem, obras deste género inclinam a balança para o lado dos oprimidos e humilhados.

Ernesto Rodrigues

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