
Do Rei D. Sebastião ao ministro Veiga Simão
Quem do Nordeste Transmontano, quem do Douro Superior, cujo PIB por habitante não chega a metade da média nacional e onde 25 por cento do orçamento alimentar é gasto em vinho, conhece os seus mitos e fortalezas, as suas esperanças adiadas, não se pode deixar de reflectir que as minas de ferro de Moncorvo têm desempenhado um farto papel na memória colectiva das populações. Às minas se prendem histórias, com aldeias calcetadas a pedra de um azul que fere ao sol ou de um triste vermelho de sangue velho. E mineiros de toada lenta, idos da Beira Baixa e cargas da GNR em alturas de greve.
O arranque das minas condensa um pouco o sebastianismo de uma parte do Nordeste, ressuscitado e alimentado com o 25 de Abril. Em consequência da esperança nasceu à beira no Carvalhal, um povoado, na sua quase totalidade composto de construções clandestinas, com dois restaurantes, um recente e pequeno hotel, oficinas pensando-se indústrias subsidiárias do D. Sebastião regressado de Alcácer, que seriam as ferrominas a funcionarem, empresa pública a partir de 12 de Abril de 1977.
Há escassos dias, Veiga Simão anuncia que o Projecto Siderúrgico Nacional vai ser congelado, pelo que a Ferrominas vai continuar a ser um projecto adiado metido, à espera de melhores dias, no frigorífico da austeridade. Em tempos de passado curto, ministros das Finanças como Morais Leitão e João Salgueiro tinham-se oposto ao projecto que necessitava, a preços de 80, de um investimento de 12 milhões de contos. Baião Horta enquanto ministro da tutela, bateu-se pelo arranque do projecto; os políticos, sem excepções na sua cor partidária, enquanto sanchos travestidos de quixotes em campanha eleitoral, defendem o projecto. Acreditava-se que D. Sebastião um dia havia de morrer. Mas não.
Feitas as contas, dos filões podiam ser extraídas duas mil toneladas por ano. No seu total, os jazigos conservam para exploração, 600 milhões de toneladas de ferro, de teor pobre, é certo, mas com a nova tecnologia, já rentável.

