Com a publicação dos decretos de
expulsão dos judeus, ficou proibido o uso da língua hebraica e até as pessoas
tiveram de abandonar o seu próprio nome e adoptar outro, que fosse cristão.
Geralmente adoptaram o nome do padrinho/madrinha.
E meio século decorrido, embora
as pessoas continuassem no interior de suas casas a fazer cerimónias judaicas,
tais cerimónias e ritos e orações iam sendo esquecidas e eram adulteradas.
Estavam, geralmente, muito pouco de acordo com as normas rabínicas. E muito
poucas eram já as pessoas que tinham verdadeiros conhecimentos bíblicos e
sabiam quando calhavam as festas, na roda do ano, segundo o calendário judaico.
Entre essas poucas pessoas,
ganhou celebridade o dr. António de Valença, morador no Mogadouro, médico da
família Távora. A tal ponto que, não apenas os da sua nação, mas até os próprios
inquisidores o tratavam por “Mestre”. E por isso mesmo lhe pediram que passasse
a escrito a relação e o significado das diferentes festividades, a data em que
se realizavam, as cerimónias, ritos, orações e tudo o que significasse
comportamentos e atitudes judaicas.
Neste aspecto e para utilizar a
linguagem dos nossos dias, podemos dizer que foi ele quem deu formação
profissional ao primeiro corpo de inquisidores, durante os cerca de 4 anos que
esteve preso em Évora (1544-1548).
E acabou também por ser o grande
denunciante de seus correligionários. Mais de uma centena de cristãos-novos
foram denunciados por ele na Inquisição, como judaizantes. E não apenas de
Mogadouro, mas de muitas terras de Trás-os-Montes, província que ele percorria
em pregações clandestinas. E a estima e confiança que todos tinham nele foi
depois a perdição dos mesmos.
Como aconteceu com Ana Doce, ou
melhor, Ana Fernandes, a doce, de alcunha.
Com efeito, na audiência de
13.9.1544, Mestre Valença confessou que Ana Doce costumava perguntar-lhe quando
caíam as festas e jejuns, nomeadamente do Kipur e da Rainha Ester, para os
guardar.
Este foi um dos testemunhos que levaram
á prisão daquela mulher, natural do Mogadouro, casada com Afonso Garcia,
cristão-novo, originário de Fermoselhe, Castela.