Fernando Pessoa
Quando eu era mesmo muito miúda- talvez uns quatro anos - tinha uma mania que só larguei após uma valente sova da minha amãe. Talvez fosse mais um sonho do que mania, mas ninguém entendeu tal sonho. Ouvia com frequência a minha avó dizer que era preciso isto ou aquilo e a minha mãe responder que não tinha a árvore das patacas. Claro que a primeira coisa que procurei saber foi que fruta seria aquela das patacas, que nós não tínhamos e tanta falta fazia. Perguntei ao meu pai, que sabia muita coisa porque, sendo caixeiro-viajante (assim eu o imaginava), viajava muito. Não tinha muito tempo para mim, pois chegava a casa era já noite fechada e saía de madrugada. Uma noite esperei por ele e perguntei-lhe sobre a tal fruta chamada patacas. Disse-me que não era fruta, fora dinheiro em Portugal e no Brasil. No ouvido ficaram gravadas as palavras dinheiro e Brasil . Entendi tudo: o Brasil era rico, porque lá havia umas árvores que davam patacas. Ora, eu iria em segredo semear umas moedinhas, regaria muito bem todos os dias e, tal como os feijões e as favas, cresceriam as pequenas árvores e eu cuidaria delas até darem moedinhas muito brilhantes, porque eram todas novinhas.
Tirei duas moedas de um tostão da bolsinha de riscado da minha mãe e fui semeá-las na minha hortinha de palmo. Regava todos os dias, mas não havia maneira de uma pontinha verde brotar do chão. A minha ansiedade era enorme. Um dia vejo o porquito fuçar a terra regada de fresco e fiquei aflita por me estragar a sementeira. Enxotei o porco e procurei as duas moedinhas. Não as encontrei. Pensei que, por serem velhas e já muito escuras de tanto uso, não serviam para semente. Até porque eu ouvia muitas vezes as mulheres comentarem que a batata de semente era cara, que tinham de escolher o melhor feijão para a sementeira, etc.Fui enterrar aquela moeda tão linda, essa sim, dela iria crescer uma bela árvore, com folhas verdinhas e, entre elas, muitas, muitas moedinhas de prata. Iria ser uma boa surpresa para a minha mãe e para a minha avó. Ao virar-me para ir buscar água à bica, deparei com três ou quatro raparigos atrá de mim a ver o que eu fazia. Expliquei-lhes que, quando a árvore crescesse e as moedinhas também, eu lhes daria algumas. Fui encher o pucarinho de água, reguei e voltei para casa.
A minha mãe barafustava “ tinha a certeza que tinha cinc’croas na bolsa, alguém tinha tirado os 25 tostões que tanto lhe custaram a ganhar...” ; a minha avó com a cara muito consumida, “que não, que ninguém entrara em nossa casa...” e eu, à porta, de olhos arregalados, a começar a entender o que eu tinha feito.
“Mãe, venha cá ver. Enterrei a moedinha e reguei-a para ela crescer e ficar uma árvore a dar mais ... “ . Nem acabei a frase. A minha mãe arrastou-me por um braço e só disse: ” Onde? ” . Levei-a à minha hortinha e mostrei-lhe o lugar, ainda bem molhado da rega. Num frenesim, escavou com as duas mãos, mas a moeda evaporara.
Apanhei uma tareia como nunca havia apanhado nem voltei a apanhar. E, apesar de pequenina, compreendi perfeitamente o desespero da minha mãe: 2$50 eram, em 1944, mais de meio dia de trabalho. A jeira de uma mulher do campo era então 4$50. Fiquei a saber que com “patacas” não se brinca.
Leiria, 5 de Setº de 2011
Júlia Ribeiro












































